terça-feira, 17 de abril de 2012

O suicídio econômico da Europa

Paul Krugman


No sábado, o jornal The New York Times reportou um fenômeno aparentemente crescente na Europa: "suicídio por crise econômica", pessoas tirando as próprias vidas por desespero com a situação de desemprego e falência de empresa. A matéria é de cortar o coração. Mas estou certo de que não fui o único leitor, especialmente entre economistas, a se perguntar se a história maior não diz respeito tanto a indivíduos como à aparente determinação dos dirigentes europeus de cometer o suicídio econômico do Continente como um todo.

Há apenas alguns meses, eu tinha alguma esperança com a Europa. O leitor talvez se lembre de que, perto do fim do ano passado, a Europa parecia estar à beira de um derretimento financeiro.Mas o Banco Central Europeu (BCE), contraparte europeia do Federal Reserve (Fed) americano, saiu em defesa do Continente. Ele ofereceu linhas de crédito ilimitadas aos bancos europeus desde que eles aceitassem bônus de governos europeus como garantia. Isso sustentou diretamente os bancos e sustentou indiretamente os governos, e acabou com o pânico.

A questão de então era se essa ação corajosa e eficaz seria o começo de um repensar amplo, se os líderes europeus usariam o espaço de desafogo bancário que criaram para reconsiderar as políticas que levaram as coisas àquele ponto.

Mas eles não usaram. Em vez disso, reforçaram suas políticas e ideias falidas. E está ficando cada vez mais difícil acreditar que alguma coisa os fará mudar de rumo.

Considerem o estado de coisas na Espanha, que está agora no epicentro da crise. Nem é o caso falar de recessão. A Espanha está em plena depressão, com a taxa de desemprego total em 23,6%, comparável à dos Estados Unidos nas profundezas da Grande Depressão, e a taxa de desemprego de jovens acima de 50%. Isso não pode continuar - e a percepção disso é que está jogando os custos de captação espanhóis ainda mais para cima.

De certa maneira, realmente não importa como a Espanha chegou a esse ponto, mas quer isso valha ou não, a história espanhola não tem nenhuma semelhança com os contos morais tão populares entre autoridades europeias, especialmente na Alemanha.

A Espanha não estava fiscalmente irresponsável - na véspera da crise, ela estava pouco endividada e com superávit orçamentário. Infelizmente, tinha também uma enorme bolha imobiliária, uma bolha possibilitada, em grande parte, pelos enormes empréstimos de bancos alemães a seus congêneres espanhóis. Quando a bolha estourou, a economia espanhola foi deixada à míngua. Os problemas fiscais da Espanha são uma consequência de sua depressão, não a sua causa.

No entanto, a receita que vem de Berlim e Frankfurt é, o leitor acertou, ainda mais austeridade fiscal.

Isso é, sem medir as palavras, simplesmente insano. A Europa teve vários anos de experiência com programas duros de austeridade, e os resultados são exatamente o que estudantes de história lhes disseram que ocorreria: esses programas empurraram economias deprimidas ainda mais fundo na depressão. E como os investidores olham para o estado da economia de um país quando vão avaliar sua capacidade de saldar dívidas, os programas de austeridade nem sequer funcionaram como uma maneira para reduzir os custos de captação.

Qual é a alternativa? Bem, nos anos 30 - uma era que a Europa moderna está começando a reproduzir em detalhes cada vez mais fiéis - , a condição fundamental para a recuperação era a saída do padrão ouro. A medida equivalente agora seria sair do euro, e a restauração de moedas nacionais. Pode-se dizer que essa medida é inconcebível, e seria de fato enormemente disruptiva tanto econômica como politicamente. Mas o inconcebível é mesmo continuar no curso presente, impondo uma austeridade ainda mais dura a países que já estão sofrendo um desemprego de era da Depressão.

De modo que se os dirigentes europeus realmente quisessem salvar o euro, eles estariam buscando um curso alternativo. E a forma dessa alternativa já está bastante clara, aliás. O Continente precisa de mais políticas monetárias expansionistas, na forma de uma disposição - uma disposição anunciada - da parte do BCE de aceitar uma inflação um pouco mais alta. O banco precisa de mais políticas fiscais expansionistas, na forma de orçamentos na Alemanha que compensem a austeridade na Espanha e em outros países em dificuldade na periferia do Continente, em vez de reforçá-la. Mesmo com essas políticas, os países periféricos enfrentariam anos de tempos difíceis. Mas ao menos haveria alguma esperança de recuperação.

O que estamos vendo realmente, contudo, é uma absoluta inflexibilidade. Em março, líderes europeus assinaram um pacto fiscal que na verdade se fixa na austeridade fiscal como resposta para qualquer e todos os problemas. Enquanto isso, autoridades de peso do banco central estão fazendo questão de enfatizar a disposição do banco de elevar as taxas ao menor indício de um aumento da inflação.

É difícil evitar, portanto, um sentimento de desespero. Em vez de admitir que estiveram errados, os dirigentes europeus parecem determinados a empurrar sua economia - e sua sociedade - para um abismo. E o mundo inteiro pagará o preço.


Tradução de Celso Paciornik

Publicado em O Estado de S.Paulo, em 17/04/2012.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Primeiros sinais da teia



Janio de Freitas


É uma teia imensa, intrincada e surpreendente que se forma com pessoas, situações e instituições de algum modo incluídas na história, que apenas se começa a perceber, centrada até agora em Carlinhos Cachoeira.

Se a CPI mista decidida pelos presidentes do Senado e da Câmara, José Sarney e Marcos Maia, conseguir aprovação das duas Casas; se conseguir razoável composição; se conseguir fazer trabalho sério e produtivo, nem assim conseguirá penetrar em certos meandros da teia para explicá-los. Seja porque nem o seu grande poder bastaria, seja por dificuldade excessiva.

A Operação Satiagraha, por exemplo, nada tinha a ver com Carlinhos.

Cachoeira e redes clandestinas de jogo. Mas o hoje deputado, e delegado da operação, Protógenes Queiroz, já se vê colhido pela vigilância sigilosa ao círculo de Cachoeira.

O deputado dispõe de incontáveis modos de citar sua atividade policial como motivo dos contatos. Mas não é tão simples.

Protógenes e o então juiz Fausto De Sanctis eram os alvos imediatos da exaltada acusação do ministro Gilmar Mendes, à época da Satiagraha, de que vivíamos "um Estado policial". Como provava, dizia ele, a gravação grampeada de um telefonema seu, no próprio Supremo Tribunal Federal. Com quem era o telefonema?

Com o senador Demóstenes Torres, que confirmou: "Sim, eu conversei por telefone com o ministro Gilmar". E nada mais disse nem lhe foi perguntado, por ninguém. Nem ao menos para saber se tinha ideia de como fora feita a gravação. Sobre a qual também Gilmar Mendes não teve ou não pôde dar qualquer esclarecimento.

Uma coisa, porém, ficou clara à época. A Satiagraha ultrapassou as finalidades que lhe estavam atribuídas e, com isso, tornou-se ela o alvo, por intermédio também dos ataques do ministro ao juiz De Sanctis. Eram muitos a querer encerrá-la. Algo havia batido em uma casa de maribondos.

Ninguém duvide: tanto os arquivos da PF guardam material valioso daquela fase, como parte dele é uma das inspirações da Operação Monte Carlo - esta que levou Cachoeira para a prisão, em fevereiro. E deu nos espantos que aí estão.

Mas por que, se há tanto tempo coletava gravações e outros materiais em torno de Carlinhos Cachoeira, a PF decidiu desfechar sua investida em fevereiro passado?

Tal explicação não aparece no pinga-pinga de seus vazamentos para a imprensa. Em todo caso, por falar em fevereiro, nesse mês ressurgiu das sombras um processo que lembra Carlinhos Cachoeira sem, no entanto, incluí-lo ou sequer citá-lo.

Esse processo ficou cinco anos guardado com o ministro Cezar Peluso, que desde 2005 o recebera para relatá-lo. É a ação do Ministério Público de Goiás contrária, por inconstitucionalidade, a um decreto e uma lei aprovada pela Assembleia goiana em 2000, ambas liberando a exploração de uma tal loteria instantânea.

Outro nome para o jogo em caça-níqueis, especialidade de Cachoeira. O Tribunal de Justiça de Goiás derrotou os procuradores do Ministério Público, que voltaram a recorrer. Mas, como jogo de azar é assunto federal, o recurso foi para o Supremo Tribunal.

Na redistribuição dos processos em mãos de Peluso, quando feito presidente do STF em 2010, o de Goiás foi entregue a Gilmar Mendes. Em abril, foi mandado ao procurador-geral da República para dar parecer. Roberto Gurgel demorou 20 meses para fazê-lo, até meados de dezembro do ano passado. E, afinal, a solução: em fevereiro, o ministro Gilmar Mendes mandou o processo ao arquivo. Com o argumento de que, ainda em Goiás, os procuradores queixosos perderam o prazo para recorrer.

Mas não perderam. Um agravo seu já demonstrara a antecedência da entrega, feita em 19.8. 2002, conforme o recibo. A data posta no recurso pelo tribunal goiano foi, porém, 25.8.2002, adotada por Gilmar Mendes para o arquivamento.

Erro de um dia, dois, seria compreensível. Mas sete dias de erro, uma semana, ao registrar a data do dia em curso, é impossível. Só por má-fé. O poder dos interesses no decreto se preveniram com esperteza.

O advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, recorreu para reconsideração de Gilmar Mendes. Não ocorrida, até ontem. O ministro limitou-se a dar entrevista afirmando que uma decisão vinculante do STF, em caso de 2007, já negava validade à exploração do jogo em caça-níqueis.

A decisão de arquivar a ação dos procuradores de Goiás, contra a inconstitucionalidade da liberação do jogo naquele Estado, não considerou a sentença do caso de 2007.

E estamos no começo da história.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 12/04/2012.

Vai fugir da guerra, Dilma?

Denis Russo Burgierman


Os chefes de Estado das Américas vão passar o fim de semana na linda Cartagena das Índias, na costa da Colômbia. O encontro promete as cenas de sempre: discursos sobre o bloqueio a Cuba, provocações de Chávez, sorrisos luminosos de Obama com o mar caribenho ao fundo.

Enquanto isso, a América Latina está se afogando em um banho de sangue. É o pedaço mais violento do mundo, bem mais do que a África. Dos 14 países com maior taxa de assassinatos, sete ficam na América Latina, a começar pelo primeiro da lista, El Salvador, onde a chance de morrer perfurado por uma bala é maior do que no Iraque em guerra.

O Brasil está olímpico competindo pelas posições do topo do ranking dos homicídios: é o 18º colocado, com 26 assassinados em cada 100 mil habitantes, mais que Palestina, Afeganistão e Moçambique. Em números absolutos, levamos o ouro: somos o país onde mais se assassina no mundo.

O motivo de tanta violência é claro como o mar do Caribe: a guerra contra as drogas.

Nos últimos 40 anos, desde que Richard Nixon sentava na cadeira de Obama, os Estados Unidos lideram uma ofensiva repressiva contra as drogas no continente inteiro.

As leis duras dão aos criminosos o monopólio de um mercado muito lucrativo, o que permite que eles sejam mais bem armados e bem pagos do que as forças de segurança.

O resultado é que os índices de violência vão às alturas. Paradoxalmente, o uso de drogas não para de crescer, por causa da falta de investimento em saúde e educação, já que o dinheiro está comprometido com armas e prisões.

A guerra contra as drogas é hoje o maior empecilho ao desenvolvimento latino-americano, afundando empresas, aumentando custos e estraçalhando o turismo. Mas, por muitos anos, nenhum político da região teve coragem de enfrentar esse problema -morriam de medo do grande irmão do norte e de perder votos nas eleições.

Isso começou a mudar. Mês passado, Otto Pérez Molina, presidente da Guatemala, sétimo país mais violento do mundo, defendeu que os países do continente comecem a conversar sobre soluções para o problema -incluindo aí a ideia de criar mercados controlados para a maconha, de forma a diminuir a lucratividade do tráfico e, consequentemente, o tamanho de suas armas.

Não pense que Perez Molina seja um bicho-grilo cabeludo: na verdade, ele é um general linha-dura que se elegeu dizendo que iria "esmagar os carteis com punho de ferro".

Mas ele não é burro. Sabe que não terá chance de vencer enquanto as nossas políticas de drogas enriquecerem o exército inimigo. Apoios à atitude corajosa de Molina pipocaram em países importantes, como Colômbia, México, Argentina, Uruguai e Chile.

Os Estados Unidos fizeram o que se espera deles: mandaram o vice-presidente dar uma bronca em Molina, fizeram pose de indignados. Estão jogando para a torcida: é ano de eleição e Obama não quer a fama de ser "mole com as drogas".

O ex-presidente da Colômbia, Cesar Gaviria, disse que a maioria dos principais oficiais do governo americano já sabe que a guerra contra as drogas foi um erro e que ela só não acaba porque está "funcionando no piloto automático".

No meio dessa confusão, um país é fundamental: o Brasil. Se Dilma apoiar claramente o debate, Brasil, México e Colômbia, as três maiores economias da América Latina, estarão do mesmo lado, defendendo a região de um banho de sangue. Isso precipitaria mudanças no mundo todo.

Mas o Brasil finge que não é com ele. O Itamaraty se recusou a comentar qualquer coisa, além de soltar uma vaga declaração de que o país "não se opõe ao debate". Nossos governantes devem estar ocupados demais escrevendo discursos sobre Cuba.


DENIS RUSSO BURGIERMAN, 38, jornalista, é autor do livro "O Fim da Guerra: a Maconha e a Criação de um Novo Sistema para Lidar com as Drogas" (Leya)

Publicado na Folha de S.Paulo, em 13/04/2012.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O carnaval acabou

Bill Hinchberger




Com aprovação de 77%, a presidente Dilma Rousseff fez inveja a Obama, mas a "quarta-feira de cinzas" pode chegar antes do esperado

Ao chegar à Casa Branca na segunda feira, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, trouxe consigo algo que sem dúvida provocou inveja em seu anfitrião, o presidente americano Barack Obama - uma aprovação de impressionantes 77% ao seu governo. Como um dos Brics, instalado confortavelmente no topo do mundo, como queridinho dos investidores internacionais, preparando-se para organizar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, o Brasil se vê arrebatado por um surto nacional de adrenalina comparável - talvez do ponto de vista caricatural - àquilo que as passistas sentem quando entram no sambódromo do Rio para receber os aplausos do público.

A euforia era evidente na mais recente edição do Fórum Econômico Mundial em Davos, na qual o contribuinte brasileiro financiou o evento oficial da noite de sábado. É costume incluir em Davos sessões voltadas especificamente a determinados países, e o Brasil foi mais uma vez o tema de uma sessão do tipo este ano. A principal conclusão pareceu ser a de que os governantes do País devem tomar cuidado para evitar o superaquecimento da economia brasileira.

Ao fim da reunião, um correspondente internacional veterano comentou: "Os brasileiros se consideram mesmo incríveis. Parece que solucionaram todos os problemas". Havia mais do que uma pitada de ironia no que ele disse, talvez porque esse correspondente tenha coberto o "milagre brasileiro" do fim dos anos 60 e início dos 70. Apresentando um crescimento de dois dígitos por um período de cinco anos consecutivos, o "milagre" levou a um excesso de empréstimos e culminou numa "década perdida" de inflação e estagnação após a crise de endividamento da América Latina, em 1982.

Aplicando consistentemente políticas fiscais e sociais extremamente responsáveis do ponto de vista macroeconômico depois de vencer a hiperinflação em meados dos anos 90, o Brasil cresceu constantemente, ainda que não espetacularmente. O País suportou com sucesso o atual declínio global, e começou finalmente a reduzir a desigualdade social, criando uma classe média relevante pela primeira vez em sua história: com atualmente 95 milhões de pessoas, a classe média finalmente passou a representar metade da população.

Talvez tenha de fato chegado a hora de esquecer a antiga piada: "O Brasil é o país do futuro - sempre o será". Talvez seja hora de dar ao autor austríaco Stefan Zweig, mais conhecido no País como autor de Brasil, país do futuro, publicado em 1941, o crédito que merece enquanto profeta.

Os brasileiros estão satisfeitos consigo mesmos. E não estão sozinhos.

Os estrangeiros estão rumando para o Brasil como as hordas que foram à Califórnia em busca do ouro em 1849. O número de moradores estrangeiros cresceu mais de 50% no último ano, passando de pouco menos de 1 milhão para 1,5 milhão de pessoas, de acordo com reportagem do Washington Post. "Agora as pessoas estão nos vendendo o Brasil", disse-me o primeiro presidente da Comissão de Valores Mobiliários brasileira, Roberto Teixeira da Costa, em conversa recente. Hoje membro do conselho diretor de várias das principais empresas brasileiras, Teixeira da Costa resumiu a situação da seguinte maneira: "Como o restante do mundo vive uma situação tão difícil, as pessoas acham que o Brasil é o grande salvador. Antes, éramos o problema. Agora, somos a solução".

Junto com outros membros dos Brics, como Índia e China, o Brasil deve ajudar a manter a economia global funcionando até que todos os demais arrumem a casa. O Banco Santander, principal credor entre os bancos espanhóis, ganha atualmente mais dinheiro no Brasil do que em qualquer outro dos mais de 30 países em que opera: um quarto do seu lucro vem do gigante latino-americano. A General Electric projetou recentemente um aumento total na renda de 25% em toda a América Latina até 2016, esperando que a região apresente desempenho superior ao da Ásia; executivos previram que Brasil, México e Peru estarão na vanguarda dessa tendência. O investimento estrangeiro direto no Brasil atingiu novo recorde pelo segundo ano consecutivo, passando de US$ 48,5 bilhões para US$ 66,7 bilhões em apenas 12 meses.

Mas essa mentalidade típica de uma corrida do ouro parece cegar tanto os governantes quanto os investidores. Alguns brasileiros astutos descrevem a psique do País como bipolar. Todos conhecem o lado positivo do carnaval, do samba, do futebol e das praias. Mas poucos compreendem o lado negativo. Os brasileiros afirmam ter um tipo próprio de melancolia, definido pela palavra "saudade", supostamente impossível de traduzir para outros idiomas. O mais elogiado compositor brasileiro, Tom Jobim, o ícone da Bossa Nova, compôs com o parceiro Vinicius de Moraes uma canção chamada Felicidade, cujo refrão destaca que Tristeza não tem fim / Felicidade, sim. Para tudo se acabar na quarta-feira (de cinzas), como dizem os versos da música e ocorre com o carnaval.

No caso da economia brasileira, o despertador da quarta-feira deve ter soado com o anúncio do crescimento de 2,7% em 2011, uma acentuada queda em relação aos 7,5% de 2010 e muito abaixo do apresentado na maioria dos demais emergentes. De fato, o Santander atribuiu seu lucro abaixo do esperado no último trimestre de 2011 a problemas no Brasil e na Grã-Bretanha.

Nouriel Roubini, o economista que ficou famoso ao prever o colapso do mercado imobiliário americano e a recessão global de 2008 que se seguiu, visitou o Brasil em fevereiro, precisamente durante o período de carnaval. Ao deixar o País, ele não se mostrou nem um pouco eufórico: "Uma sóbria avaliação realista sugere que o Brasil pode desapontar em muitos aspectos nos próximos anos, a não ser que importantes reformas estruturais sejam promovidas". Prevendo um futuro desanimador, ele acrescentou que "esse baixo crescimento potencial deixa o Brasil vulnerável a um ciclo de prosperidade e quebra conforme o País se aproxima rapidamente de sua velocidade máxima".

Por mais que outros fatores como o crescimento da classe média desempenhem um papel claro, o recente crescimento brasileiro decorreu principalmente da capacidade do País de injetar minerais e produtos agrícolas na China. Entre 2000 e 2010, a parcela das exportações brasileiras para a China saltou de 3% para 16%. O dinheiro que entra no País, somado ao investimento estrangeiro direto e ao capital em portfólios de ações, impôs pressão ao real, a moeda brasileira. Os juros brasileiros, mantidos altos para combater a inflação em lugar de reformas envolvendo o sistema tributário e a administração pública, politicamente mais complicadas, atraem os investidores estrangeiros mesmo com o controle de capitais. Os juros americanos, muito próximos do zero, e os problemas na zona do euro exacerbam esse quadro conforme o dinheiro deixa as regiões de baixa lucratividade em busca de oportunidades melhores.

Como resultado, o real apresenta supervalorização de 35% em relação ao dólar americano, de acordo com o índice Big Mac da revista The Economist. O Brasil pode já estar sofrendo da chamada doença holandesa, com sua moeda supervalorizada tornando as exportações mais caras no exterior e os produtos importados mais baratos para os consumidores brasileiros. Isso pode levar o País a uma desindustrialização incipiente: a fabricação doméstica de bens de consumo caiu quase 2% em 2011, enquanto as vendas prosperavam por causa do crescimento na demanda.

O governo brasileiro atribui a culpa pela supervalorização do real àquilo que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, chama de "guerra cambial" - a entrada de um fluxo intenso de capital especulativo que busca lucro no Brasil. Representantes do governo aplicaram medidas pouco expressivas para conter esse fluxo, como um ajuste na tributação dos empréstimos no exterior anunciado em março, prorrogando a aplicação de um imposto de 6% aos empréstimos com vencimento em três anos - antes o imposto incidia sobre os empréstimos com vencimento em dois anos.

Em resposta aos apelos da indústria local, o governo aplicou gradualmente uma série de medidas protecionistas que causaram inquietação do Japão ao México. "O Brasil continua improvisando nas políticas industrial e comercial", queixou-se a colunista Miriam Leitão, que cobre a área de economia para o jornal carioca O Globo. "Ao tentar encontrar saídas de afogadilho para o déficit que apareceu na balança, e para o magro número da indústria em 2011, tudo o que se consegue no governo é repetir o cacoete: protecionismo, vantagens para lobbies e corporações."

Como no filme O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel, no qual os convidados de um jantar não conseguem ir embora conforme a noite avança, apesar da inexplicável ausência de barreiras físicas, as soluções para os problemas do Brasil parecem óbvias, mas nunca são implementadas. A maioria dos economistas atribui a responsabilidade pela maioria dos problemas do País àquilo que é chamado de "custo Brasil", um conjunto de fatores que torna mais caros os empreendimentos no Brasil do que na maioria dos países. O Brasil ocupa a 126.ª posição (são 183) no índice do Banco Mundial que lista os países de acordo com a facilidade de conduzir os negócios, perdendo para Bangladesh, Uganda, Suazilândia e Bósnia-Herzegovina.

Suas recomendações para uma mudança costumam incluir as seguintes medidas: simplificar a estrutura tributária, reformar a administração pública e a Previdência Social para aumentar a eficiência e reduzir os gastos, alterar a legislação trabalhista para diminuir o custo da contratação de novos empregados e investir em infraestrutura.

Além disso, uma reforma fiscal daria aos governantes uma ferramenta adicional de combate à inflação, possivelmente permitindo que os juros sejam reduzidos mais rapidamente, estimulando a economia e, ao mesmo tempo, ajudando a conter o capital especulativo.

É verdade que a pauta para redução do custo Brasil é ambiciosa, mas o País progrediu pouco nessas frentes - se é que houve progresso. A infraestrutura poderia parecer vital para a preparação para a Copa do Mundo de 2014 e para a Olimpíada de 2016, mas os investimentos estão tão atrasados que chegaram a render um desagradável episódio diplomático. Um funcionário do alto escalão da federação internacional de futebol, a Fifa, sugeriu recentemente que os organizadores precisavam de "um chute no traseiro" porque estavam atrasados nos preparativos. Os eufóricos brasileiros não gostaram nem um pouco.

Talvez o Brasil esteja vivendo no próprio vácuo. Poderíamos dizer isso sobre sua política econômica. Por mais que fosse de uma popularidade sem igual, o predecessor de Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva, teve como principal contribuição à política econômica a atitude de seguir a recomendação do médico e "em primeiro lugar, não causar nenhum mal". Como afirmou o Globo em matéria especial dedicada ao fim do mandato, "o presidente Lula chega ao fim do seu oitavo ano de governo com uma popularidade nunca antes vista por um presidente do País, apesar do seu legado contraditório. Não houve avanços nem melhorias no ensino, na saúde, na segurança pública, no saneamento básico e na infraestrutura, e as reformas necessárias não foram implementadas". De acordo com o sociólogo Ted Goertzel, da Universidade Rutgers, autor de biografias de Lula e seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, "Lula optou por se aposentar com uma popularidade na casa dos 80% em vez de usar essa popularidade para pressionar por reformas controvertidas".

O maior feito de Lula foi provavelmente sua habilidade - digna de Reagan - de fazer com que os brasileiros se sentissem bem a respeito de si mesmos e do seu país - e, vencendo Reagan em seu próprio jogo, convenceu também os estrangeiros: as provas disso são a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.

Mas essa confiança levou ao tipo de convencimento que causou má impressão no correspondente veterano em Davos, cegando os líderes para a necessidade de tratar do problema do custo Brasil. Em sua campanha pela Presidência em 2010, Dilma repreendeu um repórter da Reuters numa entrevista, quando este sugeriu que talvez fosse impossível manter um crescimento de 7% sem a implementação de reformas.

"O ritmo atual de crescimento do Brasil está próximo (desta marca)?", perguntou ela, incisiva. O jornalista teve de reconhecer que a resposta era afirmativa. "Bem, então, me parece que isso é possível, sim." Claramente, o crescimento atual de 2,7% mostra que essa possibilidade não está ocorrendo no momento. E, se Dilma pretende retomar o crescimento da época de Lula, ela terá de lidar com os aliados políticos escolhidos pelo partido dela, o Partido dos Trabalhadores - o PMDB, um partido heterogêneo que não possui nenhuma ideologia política identificável. Tecnicamente, o PMDB confere à presidente a maioria no Congresso, mas seus membros tendem a trabalhar com extrema lentidão nas questões legislativas, a não ser que recebam algum benefício pessoal.

O fato de as pessoas se importarem com o destino da economia brasileira mostra o quanto o País avançou desde que começou a lutar contra a hiperinflação, há quase duas décadas. Mas a história econômica mostra que tudo funciona de acordo com ciclos. A pergunta é: será o próximo declínio do Brasil profundo e prolongado, como a "década perdida" que se seguiu ao "milagre" dos anos 70, ou curto e relativamente indolor, como ocorreu em 2009 quando o País se recuperou prontamente do choque global de 2008? Na ausência de reformas, a primeira opção parece mais provável.

Como os americanos, os brasileiros são donos de um otimismo típico do Novo Mundo, permanecendo animados mesmo durante períodos de crescimento medíocre. Entretanto, sobreviver aos maus momentos não é o suficiente para um salvador, nem para um novo pilar da economia global. A quarta-feira de cinzas pode chegar antes do esperado.


Tradução de Augusto Calil

Publicado em O Estado de S.Paulo, em 13/04/2012, e na Foreign Affairs

A Grande Cruzada de Dilma

Rolf Kuntz


A presidente Dilma Rousseff levou à Casa Branca sua cruzada contra a política monetária dos bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa Ocidental, como se o presidente Barack Obama pudesse mandar o presidente do Federal Reserve( Fed),Ben Bernanke, parar de emitir dólares. Não pode, mas, se tivesse autoridade para mandar, provavelmente daria mais atenção a seu compatriota Paul Krugman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia. Krugman defende uma política monetária frouxa até a recuperação econômica se firmar. É preciso continuar emitindo, segundo ele, mesmo com o risco de uma inflação de 3% ou 4% (a taxa está em torno de 2%).Ele expôs essa opinião num artigo publicado na sexta-feira, três dias antes da peroração da presidente brasileira em Washington. Ela havia apresentado a mesma reclamação à chancelerAngela Merkel,como se a chefe do governo alemão tivesse autoridade para comandar o Banco Central Europeu. Merkel poderia batalhar, se quisesse, por um aumento do gasto público em seu país, mas teria de conseguir apoio num Parlamento avesso à expansão fiscal.

Obama enfrenta problema semelhante num Congresso dominado pela oposição e,além disso,o orçamento americano já embute um déficit previsto de US$ 1,3 trilhão, pouco mais de 8% do Produto Interno Bruto (PIB). Apesar de tudo, a mensagem levada à Alemanha poderia ter algum sentido prático. No caso da visita aos Estados Unidos, a história é diferente e a cobrança foiumato retórico e umtanto despropositado.

O discurso da presidente mereceria mais atenção se ela cuidasse um pouco mais de seu quintal, tratando mais seriamente do volume e da qualidade do gasto público. Também isso afeta a competitividade.

O ministro de Relações Exteriores, Antônio Patriota, acompanhou o tom da presidente. É preciso, segundo ele, examinar a questão do déficit brasileiro no comércio com os Estados Unidos. A secretária d eEstado Hillary Clinton poderia ter respondido com uma pergunta: porque o governo americano deveria discutir esse problema? Afinal, ninguém se mostrou preocupado com o saldo comercial entre 2000 e 2008, quando o Brasil foi superavitário.

O ministro Patriota mencionou também a mudança na composição das exportações brasileiras. Tem aumentado a importância das commodities no valor das vendas ao mercado americano e, segundo ele, é preciso “analisar muito seriamente” esse dado. De fato, a composição mudou, mas os manufaturados ainda representaram, no ano passado, 45,3% do valor das exportações para os Estados Unidos. Haviam correspondido a 51,6% em 2010, 59,8% em 2009 e 58,7% em 2008.Juntando-se os semimanufaturados, obtém-se o total das exportações industriais – 65,6% do valor global em 2011.

O Brasil tem tido problemas comerciais importantes com os Estados Unidos, mas ninguém pode acusar o governo americano de haver criado obstáculos à expansão do comércio bilateral nem de haver imposto, nos últimos anos,barreiras importantes aos manufaturados brasileiros.A indústria brasileira simplesmente perdeu oportunidades nos Estados Unidos – assim como em outros mercados desenvolvidos – porque Brasília deu prioridade a entendimentos comerciais com os parceiros emergentes e em desenvolvimento.

O governo disfarçou os custos dessa escolha usando a retóricada diversificação. Pura embromação, porque o Brasil é há muito tempo descrito como um “globalplayer”.A multiplicação dos parceiros ocorreria mesmo sem o palavrório ideológico. Além disso, o governo brasileiro, ao negligenciar Estados Unidos e Europa, desprezou mercados importantes para a indústria nacional. O novo parceiro número um do Brasil,aChina,consome vorazmente matérias-primas e compra quase nada de manufaturados.

Como complemento, a política industrial tem sido formada por muito discurso, muita fumaça e pouquíssima substância. OPrograma de Aceleração do Crescimento (PAC) avança muito devagar e seus número ssã oinflados com os financiamentos habitacionais. As obras de infraestrutura estão estagnadas. Mas o ministro da Fazenda insiste – e ontem voltou a esse tema – em apontar o “subsídio cambial” dos países concorrentes como o grande problema do Brasil. Nem ele parece acreditar nisso, porque continua criando uma porção de medidas – quase todas pontuais – na tentativa de animar a indústria e aumentar um pouco seu poder de competição.

O ministro de Relações Exteriores está certo quanto a um ponto:é preciso, sim, examinar os números recentes do comércio com os Estados Unidos.Mas é inútil procurar lá fora as causas dos problemas.Os obstáculos mais importantes são produzidos no País. Nesse campo, a autossuficiência brasileira é incontestável.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 11/04/2012.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O presidente Demóstenes em Nova York

Elio Gaspari

Setembro de 2015: eleito presidente da República em novembro do ano passado, Demóstenes Torres chegou ontem a Nova Iorque para abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas. Reuniu-se com o presidente Barack Obama, de quem cobrou uma política mais agressiva contra os governos da Bolívia, do Equador e da Venezuela, ‘controlados por aparelhos partidários que sonham em transformar a América Latina numa nova Cuba’. Antes de embarcar, Demóstenes abriu uma crise diplomática com o Paraguai, anunciando sua intenção de rever o Tratado da Hidrelétrica de Itaipu.

O presidente brasileiro assumiu prometendo fazer ‘a faxina ética que o país precisa’. Para isso, criou um ministério com superpoderes, entregue ao ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Numa reviravolta em relação a suas posições anteriores, o presidente apoiou um projeto que legaliza o jogo no país. Ele reestruturou o programa Bolsa-Família, reduzindo-lhe as verbas e criando obstáculos para o acesso aos seus benefícios. Patrocinou projetos reduzindo a maioridade penal para 16 anos e autorizando a internação compulsória de drogados. Determinou que uma comissão especial expurgue o catálogo de livros didáticos distribuídos pelo Ministério da Educação. Atualmente, percorre o país pedindo a convocação de uma Assembleia Constituinte. A oposição do Partido dos Trabalhadores denuncia a existência de uma aliança entre o presidente e quase todos os grandes meios de comunicação do país.

Ao desembarcar no aeroporto Kennedy, Demóstenes ironizou as críticas à presença de uma jovem assessora na sua comitiva: ‘Lamentavelmente, ela não é minha amante, porque é linda’. À noite, o presidente compareceu a um jantar no restaurante Four Seasons, organizado pelo empresário Claudio Abreu, que até março de 2012 dirigia um escritório regional de relações corporativas da empreiteira Delta. Abreu é o atual secretário-executivo da Comissão de Revisão dos Contratos de Grande Obras, presidida pelo ex-procurador geral Roberto Gurgel. Chamou a atenção na comitiva do presidente o fato de alguns integrantes carregarem celulares habilitados numa loja da rua 46. Eles são chamados de ‘Clube do Nextel’.

Em 2012, a carreira do atual presidente foi ameaçada por uma investigação que o associava ao empresário Carlos Augusto Ramos, também conhecido como ‘Carlinhos Cachoeira’, marido da ex-mulher do atual senador Wilder Pedro de Morais, que era suplente de Demóstenes. O trabalho da Polícia Federal foi desqualificado pela Justiça. O assunto foi esquecido quando surgiram as denúncias do BolaGate contra o governo da presidente Dilma Rousseff envolvendo contratos de serviços e engenharia de estádios para a Copa do Mundo cancelada em 2013. A eleição de campeões da moralidade é um fenômeno comum no Brasil. Em 1959, Jânio Quadros elegeu-se montando uma vassoura. Em 1989, triunfou Fernando Collor de Mello. O primeiro renunciou numa tentativa de golpe de Estado e terminou seus dias apoquentado por pressões familiares para que revelasse os números de suas contas bancárias no exterior. O segundo deixou o poder acusado de corrupção e viveu por algum tempo em Miami, elegeu-se senador e apoiou a candidatura de Demóstenes. O tesoureiro de sua campanha foi assassinado.

Presente ao jantar do Four Seasons, o empresário Carlos Augusto Ramos não quis falar à imprensa. Ele hoje lidera o setor da indústria farmacêutica brasileira beneficiado pelos incentivos concedidos no governo anterior. Ramos chegou acompanhado pelo ministro dos Transportes, Marconi Perillo, que governou o Estado do presidente e foi o principal articulador do apoio do PSDB à sua candidatura. Uma dissidência do PT, liderada pelo deputado Rubens Otoni, também apoiou a candidatura de Demóstenes. O presidente anunciou que a BingoBrás será presidida por um ex-petista.

***

Abril de 2012: quem conhece o tamanho do conto do vigário moralista de Fernando Collor e Jânio Quadros sabe que tudo o que está escrito aí em cima poderia ter acontecido.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 08/04/2012.

A paixão segundo Marx

Aldo Pereira


Jesus chegou a Jerusalém no Domingo de Ramos, que aliás então nem se chamava assim: afora sábado, nenhum dia tem nome na semana judaica.

Aristocratas saduceus (grupo de judeus de então) logo detectaram pregação subversiva: forasteiro com intenção de criar mais uma seita? Como se já não lhes bastasse aturar fariseus demagogos, essênios santarrões e zelotes fanáticos! Viria agora perturbação no modus vivendi tão custosamente negociado com os dominadores romanos?

Herodes continuava sibarítico rei da Judeia. Precisava apenas pagar a Roma parte dos impostos que arrecadava. A eles, saduceus, cabia proveitosa exploração comercial da peregrinação. Atração turística suprema no país, o templo magnífico estimulava a economia local, sobretudo na Páscoa.

Em termos políticos de hoje, saduceus e fariseus representariam a direita nacionalista, fascista, teocrática. Jesus, a esquerda universalista, democrática, até secularista ("a César..."). Referia como iguais os samaritanos, que os conservadores detestavam como hereges. Assistia mendigos, escravos, leprosos, até mulher do mau passo ("vai, e não peques mais").

A crise culminou quando Jesus ousou bagunçar a lucrativa bolsa de câmbio instalada na entrada do templo. Ali afluíam peregrinos com moedas provindas do comércio nas lonjuras. Iam trocá-las para pagar incenso, animais dos sacrifícios rituais, bordéis, hospedagem, refeições. (Quem terá pago a Santa Ceia?)
Jesus vociferou contra a profanação. Xingou cambistas, revirou bancas, esparramou moedas escadaria abaixo.

Foi a conta. O sumo sacerdote convocou reunião de emergência do Sinédrio, que logo condenou à morte o Messias impostor.

Problema: execução era privilégio romano. Seria preciso, portanto, sanção do governador Pilatos. Levá-lo a crer, por exemplo, que o subversivo Jesus ambicionava ser rei da Judeia.

A Pilatos pouco importava quem fosse rei, desde que pagasse em dia. Percebeu a intriga e seus interesses. Mas, enfim, convinha manter a paz do status quo. Sem dizer que crucificação era um dos poucos divertimentos naquela cidade de bárbaros que nem circo tinha. Condenou.

Mesmo aturdidos, os apóstolos conseguiram se reorganizar em uma seita marginal chefiada por Tiago, um dos irmãos de Jesus. Pedro, obtuso e obstinado, preferia o cristianismo como seita judaica, interdita a incircuncisos.

Mas Paulo discordou resolutamente. (Só patrícios romanos tinham sobrenome; a qualificação "de Tarso" é gentílica.) Converter o mundo em reino de Cristo requeria sobretudo aliciamento das massas de plebeus e escravos do império romano. Embora miseráveis, sabia Paulo, a maioria deles não se sujeitaria a mutilar o pênis pela esperança de entrar no céu.

Três séculos depois, o imperador Constantino (272-337), hoje santo, admitia: o futuro estava mesmo naquele contagioso delírio coletivo. Mais astuto que reprimi-lo seria cooptar para o império aquela cruz, a infâmia sublimada em glória.
ALDO PEREIRA, 79, é ex-editorialista e colaborador especial da Folha aldopereira.argumento@uol.com.br

Publicado na Folha de S.Paulo, em 08/04/2012.

O teste da facada dos bancos

Vinicius Torres Freire

O Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal prometem grande redução das taxas de juros, como no caso do cheque especial. Esperam assim tirar clientes de instituições privadas. A depender de como a coisa vá funcionar, a promoção pode se tornar um teste da concorrência entre bancos comerciais.

O que está havendo?

1) O governo Dilma entrou em rebuliço quando percebeu que o crescimento econômico seria também baixo no primeiro trimestre;

2) O governo atribui parte do marasmo à alta dos juros para o tomador final, apesar da queda da "taxa básica" (a Selic) desde agosto;

3) O governo deu broncas nos bancos. No caso dos estatais, a bronca já teve consequências. O governo acredita que a "liquidação de juros" nos estatais deva induzir os privados a se mexerem.

A expressão "liquidação de juros" vem devidamente entre aspas porque taxas de juros não são bananas ou geladeiras, que em geral vendem mais quando seus preços caem.

A fim de saber a influência que a "queima geral" de juros no BB e na CEF pode ter no mercado, é preciso em primeiro lugar avaliar o tamanho da promoção e as condições em que serão aceitos os novos clientes do juro baixinho. Se o movimento for pequeno, promoção de marketing apenas, não vai fazer efeito.

Segundo, é preciso lembrar que esse mercado de serviços bancários é muito imperfeito, "falho". As empresas são poucas, a informação para o cliente é ruim etc. Mais importante, neste caso: o custo de mudar de banco não é pequeno (a começar pelo custo da amolação).

Terceiro, os bancos privados podem ter razão em dizer que não vão arriscar fundos, fazer mais empréstimos, porque o mar não está para peixe, a inadimplência está alta, a economia se recupera devagar e tudo isso é risco maior -de perdas, de ameaça à saúde financeira da instituição. Podem querer deixar o prejuízo para os estatais (como muita gente pensou, equivocadamente, que seria o caso na expansão de crédito da banca pública em 2008-09).

Mas pode bem ser também que os bancos estejam confortáveis com um (suposto) baixo nível de concorrência e, assim, enfiem a faca à vontade. A facada não ocorre apenas em taxas de juros. Vide o custo da taxa de administração dos fundos de investimento. Os bancos apenas vão se mexer quando o dinheiro começar a migrar para a poupança. Pode ser que o negócio seja dominado pelo oligopólio da indolência e do conforto da baixa competição.

Nesta semana, os bancos vão pedir ao governo medidas que os ajudem a baixar os juros, que de fato são altos também porque o mercado padece mesmo de inseguranças jurídicas que encarecem o crédito e, bidu, há impostos demais.

Se levarem alguma das reivindicações, podem baixar taxas -mas isso ainda demoraria. Pode ser ainda que a redução de juros viesse com a recuperação da economia e da capacidade de pagamento média dos consumidores, mais adiante.

Assim, no curto prazo, a baixa dos juros dos estatais pode ser um teste. Se a ofensiva dos bancos públicos for relevante e os privados reagirem, dentro de alguns meses (tempo bastante para avaliar inadimplências, rentabilidades e juros), pode ser que tenhamos feito um experimento importante sobre a concorrência bancária no Brasil.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 08/04/2012.

O eleitor vota, a banca governa

Clóvis Rossi

Era uma vez a definição de democracia como "governo do povo, pelo povo e para o povo". Acho que você nem se lembra mais dessa definição, tanto tempo faz que o tal de povo é chamado apenas a dar seu voto, mas apita muito pouco nas políticas que o governo de turno seguirá.

Agora, o governo é da banca, para a banca, pela banca. Pelo menos é o que confessou, candidamente, Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol, em uma reunião do Comitê Executivo de seu Partido Popular, conforme relato de "El País".

Rajoy justificou o Orçamento que acaba de apresentar, de longe o mais restritivo dos 35 anos de história da democracia espanhola, como "um sinal para os bancos". Ou seja, não é ao eleitor que o governo responde, mas à banca.

Afinal, como explicou Rajoy, "se não te emprestam, não podes gastar; e, se não podes devolver [o dinheiro tomado emprestado], todo mundo sabe o que acontece".

Não é uma explicação descabelada. É a explicitação de uma chantagem: ou os governos arrancam a pele de seus cidadãos para poder pagar à banca, ou são vítimas do mesmo esquema que quebrou as pernas, a espinha dorsal e tudo o mais de Grécia e Portugal.

O Orçamento recém-apresentado pelo governo espanhol é exemplar: prevê gastar mais (€ 29,2 bilhões ou R$ 70 bilhões) para pagar os juros da dívida neste ano do que com o seguro-desemprego, para não deixar a incrível massa de desempregados morrer de fome (€ 28,5 bilhões ou R$ 68,5 bilhões).

Atenção, no Brasil é até pior: no ano passado, a economia do governo para pagar a dívida foi o equivalente a 5,72% do PIB (Produto Interno Bruto, medida da produção de riquezas), ao passo que o Bolsa Família consumiu só 0,4% do PIB. E ainda tem gente que vive falando que o Brasil está promovendo distribuição de renda. Só se for de todos nós, contribuintes, para os ricos que detêm os títulos do governo.

Volto à Espanha: pelo menos funciona essa rendição incondicional à banca? Não. Ontem mesmo, o país pôs títulos no mercado pagando juros mais altos que em março, antes da divulgação do Orçamento escorchante. Deu crise nos mercados, que se comportam como piranhas: caiu uma gotinha de sangue n'água e lá vêm elas ávidas por mais.

Se não aplaca a fúria dos mercados, o arrocho tampouco satisfaz o eleitor. Prova: entre a eleição geral de 20 de novembro e a eleição regional na Andaluzia em 25 de março, o PP de Rajoy perdeu 430 mil votos naquela área do sul espanhol.

Foi até o mais votado, isoladamente, mas a união das oposições (socialistas e Esquerda Unida) tende a fazer com que o poder permaneça com a esquerda, como ocorre há 30 anos.

Qual é a graça, então, de dar um "sinal" para a banca, se esta exige outros e mais outros, como se vê da reação dos mercados ontem, e se o eleitor entende que o sinal acaba arrasando ainda mais uma economia que já vem mal das pernas, apesar de o governo anterior também ter emitido "sinais" parecidos, que, de resto, custaram aos socialistas uma surra histórica?

Cedo ou tarde, os governos, não só o espanhol, terão que escolher entre o eleitor e a banca.

crossi@uol.com.br
Publicado na Folha de S.Paulo, em 05/04/2012.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Aos EUA, as nossas lições sobre decadência


Gabriel Saez



Tony Soprano: "É bom fazer parte de algo desde o começo. Cheguei tarde para isso, eu sei. Mas ultimamente sinto a sensação de que cheguei no fim. A melhor parte já terminou."

Dra. Melfi: "Acho que muitos americanos têm essa sensação."

Por mais de uma década eu tinha ouvido falar sobre como a série americana "Família Soprano" ("The Sopranos", no original) era ótima. Então finalmente decidi experimentar.

Fiquei chocado quando, após quatro minutos de episódio piloto, o diálogo acima aconteceu. Soou tão familiar... Afinal, é um sujeito de origem italiana reclamando que o presente, apesar de ser mais rico e confortável, é pior que o passado. Era a encarnação do espírito argentino.

Crescer na Argentina implica continuamente praticar o revisionismo histórico e ceder à nostalgia de nossa grandeza passada.

Na realidade, é uma nostalgia da grandeza à qual sentimos ter direito, mas da qual, por alguma razão, fomos privados. A psique argentina reside na terra do "deveria, teria, poderia ter". Se o Brasil é o eterno país do futuro, a Argentina é o país do passado perenemente dourado.

Nós somos obcecados em olhar para trás, para um tempo (há um século, digamos) em que nosso PIB era comparável ao das potências europeias. Coçamos nossas cabeças tentando entender como pudemos fazer tudo errado desde então. Ah, se...

A Argentina é a decana do clube de nações totalmente obcecadas por seu declínio. Logo, é um grande prazer para nós receber os Estados Unidos em nossa irmandade mal-humorada. Isso mesmo, podem ocupar seu lugar ali ao lado da França.

Sejam bem-vindos, mas se preparem para muitos comentários sarcásticos. Pessoalmente, estou farto de ouvir que "o Japão é um exemplo do quanto é possível fazer com tão pouco; a Argentina é o contrário". Há o igualmente irritante "a Austrália é o que a Argentina poderia ter sido". Os brasileiros me dão aflição com o seu convite sutil para que a Argentina se torne "o seu Canadá".

Mas os tempos globais difíceis fazem a nossa experiência parecer relevante. Por isso, nossa presidente aproveita toda oportunidade para pregar sobre o "modelo argentino". Não é um modelo de desenvolvimento. É um modelo de resiliência.

Sabe por que? Quando olhamos a Grécia, sorrimos. Sabemos imediata e instintivamente o que é aquela confusão toda. Vemos os "indignados" espanhóis como irmãos. "Ocupe Wall Street" nos parece ser a versão de Hollywood de "Que se vayan todos", movimento que afastou o presidente De La Rúa, há uma década, e nos permitiu o privilégio raro de ter cinco presidentes em uma semana.

Tá vendo, América? Vocês ainda têm muito chão pela frente.

Não se preocupem: um declínio obsessivo não é de todo ruim. É uma dádiva para livreiros, psicanalistas e analistas políticos pessimistas. Converte taxistas em filósofos. Parece fazer maravilhas também pelo consumo de carne vermelha e vinho, sem falar nas conversas de café de final de noite, cheias de angústia existencial. Buenos Aires curte final de noite e angústia existencial como ninguém. Quem sabe o Kansas assista ao surgimento de sua própria dança melancólica que lembre o tango.

Mas, para que vocês americanos possam entrar para o clube das nações em declínio obsessivo, ainda há algo que precisam fazer. Guerras sem sentido, política fiscal insensata e decadência cultural não bastam.

Vocês também precisam se livrar da sua fé na possibilidade de reinvenção. Sim, precisam desistir daquilo que Mangabeira Unger e Cornel West descreveram como "a religião americana da possibilidade".

A ordem natural das coisas é que a democracia realize um ideal e que os próprios indivíduos se realizem? Esqueçam. Isso é um obstáculo ao gozo pleno do declínio, sempre acompanhado de fatalismo resignado.

A religião americana da possibilidade é o que nós, de outras partes do mundo, mais admiramos nos EUA ao longo da história. Nós, argentinos, estamos tão envolvidos em nosso drama histórico que é difícil perceber quão grandes fomos de fato.

Mas pessoas de todo o mundo vieram para cá, sim, em busca de felicidade e realização. A maioria dos filhos delas ainda ama esta terra. Nossos vizinhos gostam de nós mais do que se dispõem a admitir. Quem sabe algum dia ainda possamos conquistar a grandeza -ou ao menos um ponto de equilíbrio entre humor e angústia existencial, tornando os nossos "poderíamos-ter-sidos" mais folclóricos e menos dolorosos.

Não seria exatamente reinventar a noção de reinvenção, algo que ainda pode estar ao alcance dos EUA, mas pode ser o suficiente para fazer com que o Tony Soprano que existe em nós se sinta um pouco melhor.


GABRIEL SAEZ, 38, mestre em relações internacionais pela Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais (Argentina), é assessor na Câmara dos Deputados do país

Publicado na Folha de S.Paulo, em 02/04/2012.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A primeira pedra

Luis Fernando Veríssimo


E os fariseus trouxeram a Jesus uma mulher apanhada em adultério e perguntaram a Jesus se ela não deveria ser apedrejada até a morte, como mandava a lei de Moisés. E disse Jesus: “Aquele entre vós que estiver sem pecado que atire a primeira pedra”. E a vida da mulher foi poupada, pois nenhum dos seus acusadores era sem pecado. Assim está na Bíblia, evangelho de São João 8, 1 a 11.

Mas imagine que a Bíblia não tenha contado toda a história. Tudo o que realmente aconteceu naquela manhã, no Monte das Oliveiras. Na versão completa do episódio, um dos fariseus, depois de ouvir a frase de Jesus, pega uma pedra do chão e prepara-se para atirá-la contra a mulher, dizendo: “Eu estou sem pecado!”.

– Pera lá – diz Jesus, segurando o seu braço. – Você é um adúltero conhecido. Larga a pedra.

– Ah. Pensei que adultério só fosse pecado para as mulheres – diz o fariseu, largando a pedra.

Outro fariseu junta uma pedra do chão e prepara-se para atirá-la contra a mulher, gritando: “Nunca cometi adultério, sou puro como um cordeiro recém-nascido!”.

– Falando em cordeiro – diz Jesus, segurando o seu braço também – e aquele rebanho que você foi encarregado de trazer para o templo, mas no caminho desviou dez por cento para o seu próprio rebanho?

– Nunca ficou provado nada! – protesta o fariseu.

– Mas eu sei – diz Jesus. – Larga a pedra.

Um terceiro fariseu pega uma pedra do chão e prepara-se para atirá-la contra a adúltera, dizendo: “Não só não sou corrupto como sempre combati a corrupção. Fui eu que denunciei o escândalo da propina paga mensalmente a sacerdotes para apoiar os senhores do templo”.

– Mas foste tu o primeiro a receber propina – diz Jesus, segurando seu braço.

– No meu caso, foi para melhor combater a corrupção!

– Larga a pedra.

Um quarto fariseu junta uma pedra do chão e prepara-se para atirá-la contra a mulher, dizendo: “Não tenho pecados, nem da carne, nem de cupidez ou ganância!”.

– Ah, é? – diz Jesus, segurando o seu braço. – E aquela viúva que exploravas, tirando-lhe todo o dinheiro?

– Mas isto foi há muito tempo, e a mulher já morreu.

– Larga a pedra, vai.

E quando os fariseus se afastam, um discípulo pergunta a Jesus:

– Mestre, que lição podemos tirar deste episódio?

– Evitem a hipocrisia e o moralismo relativo – diz Jesus.

E, pensando um pouco mais adiante:

– E, se possível, a política partidária.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 29/03/2012.

Comissão da Verdade tem de incluir elites civis

José Luiz Niemeyer dos Santos Filho


A discussão das últimas semanas, referente às ácidas cartas de setores da reserva das Forças Armadas sobre o processo de criação de uma Comissão da Verdade, coloca um ponto importante para nossa reflexão.

Quem pensou, organizou e operacionalizou o movimento de 1964?

A resposta soa clara ao aluno desatento do ensino médio: militares.

Mas não. A participação ativa dos setores civis da sociedade no golpe militar de 31 de março de 1964 deve ser discutida e aprofundada, inclusive naquilo que se refere à tortura e ao desaparecimento daqueles que se opunham ao regime.

Não se muda a história. A participação civil nos regimes ditatoriais é regra quando se observa alguns dos processos históricos contemporâneos. Além dos militares e dos serviços secretos, sempre há aqueles grupos civis que incentivaram a ruptura institucional a partir do uso da força militar.

Foi assim no movimento de ascensão do nazismo na Alemanha, do fascismo na Itália e do comunismo na antiga União Soviética. É padrão: o setor conservador e radical das Forças Armadas se ancora no meio civil como braço auxiliar para a ação de poder.

E tão grave quanto: os setores civis, principalmente das elites empresariais conservadoras, utilizam-se da caserna para manterem privilégios e garantirem novas regalias.

O grande historiador Tony Judt, no épico "Pós-Guerra" (no Brasil, disponível pela editora Objetiva), mostra essa aproximação difusa e obscura entre civis e militares nos projetos de tomada do poder à força na história contemporânea.

Quando a ministra de Direitos Humanos Maria do Rosário menciona a importância de elucidar a participação dos setores e grupos civis nos processos de radicalização do regime de 1964, ela está certa.

Se os excessos cometidos pelos radicais de farda ocorreram, é necessário ressaltar que eles aconteceram também por incentivo e por interesse desses grupos.

Vale lembrar que a deflagração do golpe militar de 1964 foi precedida por uma movimentação da classe média paulista (a chamada "Marcha com Deus Pela Liberdade", que foi organizada também por grupos ligados às grandes empresas de São Paulo).

O ano de 1964 é também resultado do apoio irrestrito dos chamados "capitães da indústria" de São Paulo e dos representantes mais conservadores das oligarquias agrárias do Nordeste à época.

São grupos civis, com origem ligada ao empresariado, que frequentavam recepções de congraçamento entre civis e militares, gabinetes governamentais e ambientes acadêmicos ideológicos, como a Escola Superior de Guerra -chamada pelos próprios "estagiários" mais envaidecidos de "Sorbonne brasileira", que viam no golpe de 1964 uma oportunidade única.

Essa oportunidade se baseava em uma estratégia que foi regra mestra no desenvolvimento econômico do período: o arrocho salarial para manutenção dos ganhos de capital, agenda decisiva para a manutenção do patamar de lucratividade dos investimentos nacionais e internacionais no período após Juscelino, de rápida industrialização do país.

Mas o incentivo para o golpe e o decisivo apoio durante boa parte da execução do regime de 1964 não ficam restritos a essa ação quase "institucional" dos grupos civis que se fundiam aos interesses dos militares mais radicais à época.

Mais graves foram as ações pensadas e organizadas diretamente por grupos civis radicais, como o obscuro "Comando de Caça aos Comunistas", a "Operação Bandeirantes", entre outras, que foram conduzidas a partir de ações clandestinas, com o apoio dos serviços secretos militares e das lideranças e grupos empresariais à época.

Esperemos que, se criada, a Comissão da Verdade, de alguma forma, também possa se deter nesta seara que envolve uma segunda sombra do regime de 1964.

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JOSÉ LUIZ NIEMEYER DOS SANTOS FILHO, 45, doutor em ciência política pela USP, coordena o departamento de relações internacionais do Ibmec-RJ (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais)

Publicado na Folha de S.Paulo, em 27/03/2012.

Tomografia do poder

Carlos Heitor Cony

Ali Abn Beroel pulou o muro da casa de Mustafá Tarak para roubar os gansos que viviam no jardim mais suntuoso de Bagdá. Ali Abn caiu e quebrou a perna. Foi se queixar ao califa: "Sombra de Alá na Terra! O rico mercador Mustafá Tarak ergueu um muro tão alto para proteger seu jardim que eu, indo roubar os seus gansos, caí e quebrei a perna. Mustafá deve ser enforcado!".

O califa mandou chamar Mustafá, repetiu a queixa do ladrão e ouviu a desculpa: "Luz enviada por Alá para iluminar o mundo! A culpa foi do mestre de obras, que ergueu o muro mais alto do que o combinado. Gastou tanto o meu dinheiro que caí na miséria!".

O mestre de obras foi chamado pelo califa, que o culpou de ter quebrado a perna de Ali Abn e de ter falido Mustafá Tarak. Mas o acusado explicou: "Pai de todos os crentes! Eu ia erguer o muro pela metade, mas certa manhã vi a formosa Fátima, filha de Mustafá, dando comida aos gansos. Aumentei o muro para que a pudesse ver mais e melhor. Por causa dela, gastei demais e perdi o emprego. Ela deve ser afogada no Eufrates!".

A formosa Fátima foi chamada e ia ser afogada no Eufrates por ter desempregado o mestre de obras, falido o pai e quebrado a perna do ladrão. Mas ela contou: "Pedaço de lua crescente! Todas as manhãs preciso dar comida aos meus gansos!".

O califa, sombra de Alá na Terra, pai de todos os crentes, pedaço de lua crescente, mandou matar todos os gansos da filha de Mustafá.

Não sei se inventei essa história ou li coisa parecida em qualquer canto. É a tomografia computadorizada do poder, de qualquer poder, em cujas entranhas todos entregam todos e pedem castigo para punir o erro dos outros, inclusive a corrupção. Quem paga tudo são os gansos, que somos todos nós.
Publicado na Folha de S.Paulo, em 01/04/2012.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Brasil-Irã

Mark Weisbrot


Na semana passada, o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, fez uma declaração corajosa e muito importante sobre a ameaça crescente de um ataque militar ao Irã. Ele pediu ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que desse seu parecer sobre a legalidade de um ataque contra o Irã, como vem sendo ameaçado.

"Às vezes ouvimos a expressão 'todas as opções estão sobre a mesa'", disse. "Mas algumas são contrárias às leis internacionais."

As pessoas que continuam a afirmar que "todas as opções estão sobre a mesa", aludindo ao Irã, incluem várias autoridades dos EUA e de Israel e, o que é mais importante, o próprio presidente Obama.

E todo mundo sabe o que querem dizer quando afirmam que "todas as opções estão sobre a mesa": eles se reservam o "direito" de bombardear o Irã se não conseguirem o que querem por meios não militares, incluindo sanções econômicas.

Mas tal ação seria de fato "contrária à lei", como Patriota sugeriu. Na realidade, é um crime muito grave segundo as leis internacionais e representa uma violação clara da Carta das Nações Unidas (artigo 2).

A simples ameaça de recorrer à força militar contra outro Estado-membro da ONU -o que Obama e o governo israelense já fizeram- já é uma violação da Carta da ONU.

Aqui nos EUA, a mídia -especialmente as maiores emissoras de TV e rádio- vem produzindo propaganda de guerra sobre a "ameaça" vinda do Irã, em um replay virtual do que antecedeu a invasão do Iraque em 2003.

O Congresso, liderado pelo lobby neoconservador e pelo Aipac (lobby pró-Israel), vem fazendo pressão para cortar as soluções diplomáticas.

Uma resolução submetida ao Senado americano no momento incentivaria uma ação militar contra o Irã por simplesmente possuir a "capacidade" de produzir uma arma nuclear -algo que o Brasil, a Argentina, o Japão e outros países com programas pacíficos já possuem.

E tudo isso a despeito do fato de o Irã atender às demandas do Tratado de Não Proliferação Nuclear, incluindo as inspeções exigidas, e de não ter demonstrado nenhuma intenção de violar o tratado.

A visão consensual das 16 agências de inteligência dos EUA, segundo o "New York Times", é que "não há prova concreta de que o Irã decidiu construir arma nuclear".

É vital que os países que estão interessados em manter a paz e um mundo regido por tratados e diplomacia internacionais, em vez da força, se manifestem, como o Brasil fez, antes de uma guerra começar.

A declaração de Patriota é muito importante. Há muito mais que pode ser feito. O Brasil poderia trabalhar com os Brics e com a Unasul para conseguir mais declarações e compromissos. Esses grupos, ou seus países-membros, poderiam anunciar como reagiriam a um país que lançasse um ataque militar não provocado contra o Irã.

Por exemplo, poderiam comprometer-se a retirar seus embaixadores desse país, a romper relações diplomáticas e a rever suas relações comerciais, com a possibilidade de sanções econômicas seletivas.

Para prevenir outra guerra desnecessária e suas atrocidades inevitáveis, o esforço vale a pena.


Tradução de CLARA ALLAIN
Publicado na Folha de S.Paulo, em 29/02/2012.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A nova influência do Brasil

David Rothkopf


Enquanto os Estados Unidos avançam de maneira hesitante para aceitar a nova realidade multipolar do mundo, dando um passo atrás para cada passo à frente, fazendo uma violação de soberania excepcional para cada esforço de colaboração em lugares como a Líbia, outros países estão trabalhando ativamente para estabelecer novas regras para todas as nações seguirem na nova era.

Entre os que estão na linha de frente desse esforço, contam-se a presidente brasileira, Dilma Rousseff, e seu respeitadíssimo chanceler, Antonio Patriota.

O desafio que Dilma e Patriota enfrentam como servidores públicos é assustador. Cada um deles segue as pegadas de um formidável antecessor.

O desafio de Dilma é, admitidamente, muito maior e, de fato, para muitos, parece quase insuperável. Ela sucede a dois presidentes que foram, provavelmente, os mais importantes da história moderna de seu país, Fernando Henrique Cardoso, a quem é creditada a estabilização da economia brasileira após anos de volatilidade, e o antecessor imediato dela, Luiz Inácio Lula da Silva, não somente seu mentor, mas um integrante do pequeno punhado dos líderes mundiais mais importantes da última década.

Já o antecessor de Patriota, Celso Amorim, foi também formidável, extremamente influente, e uma presença constante no cenário brasileiro e internacional. O desafios eram grandes para todo o governo de Dilma.

No entanto, após um ano no cargo, e apesar de enfrentar grandes desafios domésticos e internacionais, a presidente já alcançou um índice de popularidade superior ao de Lula num ponto equiparável de seu mandato.

E Patriota está dando continuidade com calma, e aos olhos de observadores próximos, com grande habilidade, ao trabalho desbravador de Amorim para estabelecer o Brasil como um líder entre as grandes potencias mundiais.

"Temos uma grande vantagem", observa Patriota. "Não temos inimigos reais, nem lutas em nossas fronteiras, nem grandes rivais históricos ou contemporâneos entre as fileiras das potências mais importantes... e temos laços duradouros com muitas nações desenvolvidas e emergentes do mundo." Essa é uma condição que não é desfrutada por nenhum dos outros Bric - China, Índia e Rússia - nem, aliás, por alguma grande potência tradicional do mundo. Essa posição incomum é fortalecida ainda mais pelo fato de o Brasil não estar investindo tão pesadamente quanto as outras potências ascendentes em capacidade militar. Aliás, como observou Tom Shannon, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, o país é um dos poucos a efetivamente apostar seu futuro na aplicação sábia do chamado "poder brando" - diplomacia, alavancagem econômica, interesses comuns.

Não é por coincidência, aliás, que, em áreas que vão das mudanças climáticas ao comércio, da não proliferação nuclear ao desenvolvimento, o Brasil, sob o comando de Lula e Amorim e de Dilma e Patriota, vem ganhando força ao traduzir o crescimento consistente em casa e a diplomacia ativa no exterior em redes internacionais efetivas.

Mas o governo de Dilma também está rompendo com o passado. Enquanto Cardoso e Lula alcançaram a grandeza enfrentando e resolvendo alguns dos problemas mais ruinosos do passado brasileiro, da estabilização da economia ao enfrentamento da desigualdade social, Dilma, sem deixar de reconhecer o trabalho que resta a ser feito, concentrou sua atenção também na criação de oportunidades e num claro caminho para o futuro do Brasil. De seu foco em educação a seu compromisso com ciência e tecnologia passando por programas inovadores como "Ciência Sem Fronteiras", ela está fazendo algo que nenhum líder latino-americano fez anteriormente, mas que se mostrou uma fórmula aprovada na Ásia.

Está comprometida em transformar o Brasil de economia com base em recursos naturais e, portanto, dependente (o que significa dizer, vulnerável) em uma que conta mais para o crescimento futuro com as indústrias de valor agregado, a pesquisa e desenvolvimento, e a formação de mais cientistas e engenheiros.

Com base nisso, Patriota também está olhando para frente. Ele está indo além da era da política externa brasileira em que era inovador fazer o país olhar para fora de sua região e jogar um papel ativo nos assuntos globais, para um período, num futuro não muito distante, em que o Brasil, na condição de país com uma das cinco maiores economias e populações do mundo, de líder mundial em agronegócios e energia, assumirá sem hesitação que merece seu lugar à mesa.

Patriota esteve em Nova York por achar que um dos primeiros experimentos dessa era, a intervenção na Líbia sancionada pela ONU, saiu dos trilhos quando a missão autorizada pelas Nações Unidas de proteger o povo líbio foi deixada de lado pelas forças internacionais que intervieram tornando-se antes uma missão de mudança de regime. Ele não era nenhum admirador de Muamar Kadafi, que fique claro. Mas tem o sentimento inabalável de que, para a comunidade internacional operar de fato unida, ela precisa fazê-lo sob regras não só coletivamente estabelecidas, mas também coletivamente honradas.

Essa atitude provoca irritações, com certeza, em especial em países como os Estados Unidos, que estão acostumados a operar segundo suas próprias regras. Essa é uma razão por que a iniciativa turco-brasileira de 2010 para costurar um acordo para desarmar a crise nuclear iraniana foi tão irritante para Washington. A medida, por mais ingênua que tenha parecido para alguns, antecipou o início de uma era em que potências regionais e emergentes, como Turquia com Síria ou China com Irã, são fundamentais para se alcançar os objetivos da comunidade internacional.

Patriota reconhece que os Estados Unidos, sob o comando de Barack Obama, e outras potências estabelecidas avançaram bastante para se adaptar a essa nova realidade. Dito isso, ele gostaria de ver Obama avançar mais. Por exemplo, os brasileiros estão entre as potências emergentes que pressionam por reformas reais na maneira como as instituições internacionais são conduzidas. Eles acham que a ordem pós-2.ª Guerra refletida na estrutura de poder do Conselho de Segurança da ONU e na concessão automática da liderança do Banco Mundial a um americano está obsoleta e que já é hora de alguma coisa que reflita as realidades do século 21 e seja mais consistente com os princípios democráticos sobre os quais essas instituições foram estabelecidas.

É difícil discordar dos brasileiros ou de outros sobre esses pontos. E a inconsistência mostrada pelo governo Obama nessa frente - oferecendo apoio a uma participação permanente indiana, mas não brasileira, no Conselho de Segurança, em certo momento parecendo simpático a uma abertura do principal cargo no Banco Mundial a um não americano, mais recentemente parecendo recuar dessa ideia - tem sido irritante e, eu diria, irrefletida.

O que Dilma e Patriota estão tentando fazer na frente internacional é, de fato, tão revolucionário quanto o que seus antecessores fizeram.

Eles compreendem que um multilateralismo bem-sucedido agora requer não só maior número de países, mas abertura a uma multidão de ideias.

Durante a Guerra Fria, o debate era binário: soviéticos ou americanos.

Em sua esteira houve a breve ilusão de que havíamos entrado num momento de fim da História em que uma filosofia de mercados e democracia liderada pelo Consenso de Washington adquiria uma espécie de status de monopólio no mercado das ideias. Mas depois vieram as tragédias gêmeas, frutos da arrogância, do Iraque e da crise financeira de 2008, a simultânea ascensão de novas potências como Brasil, China, Índia e outros - e entramos em uma nova era. Em meu livro, Power, Inc., me refiro ao lado econômico dessa era como um período de capitalismos concorrentes. Mas ele é também um período de filosofias políticas concorrentes sobre o papel, tanto do Estado, como das instituições internacionais. Nesse mundo, não só os Estados Unidos são apenas uma voz, mas são também uma voz enfraquecida que em cada evento será ouvida como a mera visão de menos de 5% da população do planeta. Ao mesmo tempo, outros terão de preencher o vazio criado pelo redimensionamento da influência americana. O Brasil está tentando fazê-lo e, é preciso notar, de uma maneira consideravelmente mais construtiva que a evidenciada por China e Rússia em seu desempenho pusilânime com respeito à Síria no Conselho de Segurança. Dito isso, as potências emergentes, o Brasil entre elas, precisam reconhecer que, neste novo mundo, se pretendem jogar papéis maiores, elas também terão de fazer escolhas duras e não simplesmente desconsiderar as questões complexas como problemas alheios ou fora do alcance do sistema internacional em evolução. Elas vão ter de aceitar cada vez mais que se as injustiças não forem contidas, os custos resultantes serão largados em suas portas.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
DAVID ROTHKOPF É ANALISTA DO CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE
Publicado em O Estado de S.Paulo, em 02/03/2012.

Responsabilização

Luis Fernando Veríssimo


O Cristopher Hitchens disse certa fez que se fizera uma promessa: não leria mais nada escrito pelo Henry Kissinger até que fossem publicadas suas cartas da prisão. O Hitchens já morreu, o Kissinger continua escrevendo (seu último livro é sobre a China) e são poucas as probabilidades de que venha a ser julgado, o que dirá preso, pelo que aprontou – no Chile e no Vietnã, por exemplo.

Sua posteridade como estrategista geopolítico e conselheiro de presidentes está assegurada, ele morrerá sem ser responsabilizado por nada e não serão seus inimigos que escreverão seu epitáfio.

O juiz espanhol Garzón, aquele que mandou prender o Pinochet, estava mexendo com o passado franquista da Espanha, também atrás de responsabilização, e bateu de frente com a reação. Recorreram a um tecnicismo de legalidade duvidosa para barrá-lo. Lá também se invoca uma Lei da Anistia para impedir uma investigação dos crimes da ditadura. Anistia não anula responsabilização. A partir do tribunal de Nuremberg que julgou a cúpula nazista no fim da Segunda Guerra Mundial, passando pelos julgamentos de tiranos em cortes internacionais desde então, o objetivo buscado é a responsabilização, que não tem nada a ver com retribuição, vingança ou mesmo justiça. Até hoje discute-se a legalidade formal, de um ponto de vista estritamente jurídico, dos processos em Nuremberg, mas era impensável, diante da enormidade do que tinha acontecido, e sob o impacto das primeiras imagens dos corpos empilhados nos campos de concentração nazistas recém-liberados, que eles não se realizassem. Alguma forma de responsabilização era uma necessidade histórica. Com alguma grandiloquência se poderia dizer que a consciência humana a exigia.

A tal Comissão da Verdade que se pretende no Brasil responderia à mesma exigência histórica, além da necessidade de completar a história individual de tantos cujo destino ainda é desconhecido.

A julgar pela rapidez com que, aos primeiros protestos de evangélicos e bispos católicos, o Gilberto Carvalho correu para lhes dizer que a posição do governo em relação ao aborto continuaria retrograda como a deles, pode-se duvidar da disposição do governo para enfrentar a reação que virá, como na Espanha do Garzón, ao exame do nosso passado e à responsabilização dos seus desmandos. Vamos torcer para que, neste caso, a espinha do governo seja mais firme.

Pois sem responsabilização as histórias ficam sem fim, soltas no espaço como fiapos elétricos, e o passado nunca vai embora.


Publicado no jornal O Globo e em O Estado de São Paulo, em 01/03/2012.