terça-feira, 15 de maio de 2012

Crise existencial

Rubens Ricupero



Algo de grave deve estar ocorrendo no mundo quando os questionamentos profundos partem não das vítimas e contestadores do sistema, mas de seus dirigentes e intérpretes.

As críticas mais persuasivas e contundentes à ordem econômica que nos governa provêm hoje de pessoas como os bilionários Warren Buffett e George Soros, analistas como Pascal Lamy e Martin Wolf, para não falar dos críticos mais assíduos, os prêmios Nobel Paul Krugman e Joseph Stiglitz.

Nem por esforço de imaginação seria possível atribuir a algum deles a etiqueta de ideólogo, lunático ou radical. Embora diversos entre si, convergem todos em pontos cruciais: o colapso irremediável da financeirização da economia, a inaceitabilidade da desigualdade crescente, a inadequação da ênfase obsessiva na austeridade, a gravidade do desemprego. O que esses problemas têm em comum é que constituem, por qualquer critério, as questões essenciais que nos deveríamos colocar, mas se encontram quase sempre ausentes dos debates dos governos e das instituições internacionais.

É curioso, por exemplo, que Pascal Lamy, dirigente máximo da Organização Mundial do Comércio (OMC) e homem de reflexão exigente, tenha julgado necessário escrever artigos para exprimir ideias que seriam consideradas fora de lugar se expressas em sua organização.

Os governos, com efeito, têm medo de descer à raiz das coisas. Preferem, em nome da eficiência, concentrar-se na conjuntura, no curto prazo da crise. Controlam e burocratizam as agendas, que não abrem espaço para questionamentos de valor. Não é difícil imaginar o espanto que Lamy teria provocado na OMC se tivesse repetido o que escreveu no artigo "O futuro do capitalismo".

Nele citava a previsão de Schumpeter de que o capitalismo das grandes corporações acabaria por desencadear forte contestação. Esta teria chegado sob a forma de crise de legitimidade provocada por três causas: a tendência ao agravamento da desigualdade, o desemprego em níveis intoleráveis e um regime financeiro enlouquecido, ameaçando destruir o próprio sistema.

Escrito meses atrás, quando parecia esboçar-se uma recuperação tímida, o artigo vê suas previsões confirmadas por Martin Wolf, que denuncia um desemprego de jovens em 51% na Grécia e na Espanha, e 36% na Itália e em Portugal!

Em todos esses países, mais a Irlanda, a tendência é para queda ou estagnação da economia e crescimento da dívida, apesar da austeridade. Wolf conclui que alguma coisa precisa mudar, mas todos os caminhos estão bloqueados.

A alusão deve ser à austeridade, única das questões em pauta devido à eleição de Hollande na França e ao impasse na Grécia.

A reforma financeira foi praticamente abandonada pelos governos e pelo G20. A desigualdade e o desemprego jamais foram objetos de exame. No melhor dos casos, espera-se que desapareçam com a recuperação, embora já estivessem presentes antes do início da crise.

O aumento do extremismo nas eleições europeias sinaliza o perigo do bloqueio. Reconhecer que, além da conjuntura, as questões de fundo têm de ser enfrentadas e resolvidas é o único meio de garantir um processo político gerador de esperança.



Publicado na Folha de S.Paulo, em 14/05/2012.

Nus na cachoeira, pelados de ideias

Vinicius Torres Freire



O Congresso apita pouco sobre economia. Não é novidade. Mal mexe no Orçamento, ao qual quase apenas emenda verbas para bases eleitorais da deputação.

A política econômica, então, é um universo paralelo. Além de estar muita vez fora da alçada legal do Congresso, as providências econômicas escapam do entendimento intelectual dos parlamentares, cada vez mais toscos e omissos, uma tigrada.

A ausência do Congresso fica ainda mais notável em momentos como este, em que a política econômica vai sendo como que virada do avesso ao mesmo tempo em que outra vez a gente enxerga as entranhas mais revoltantes da política politiqueira, o caso de Cachoeira & turma, e as mumunhas que antecedem o julgamento do mensalão.

Sim, o Congresso legisla sobre impostos, divisões de royalties, aumentos de funcionários etc., aprecia as medidas provisórias que definem muito da política econômica.

Mas, no melhor dos casos, quanto a gastos e impostos, dedica-se a dividir o butim federativo. No comum dos casos, pendura nas leis contrabandos que favorecem interesses muito privados.

Não devia ser tanto assim.

Política econômica é, enfim, política, e nem política os políticos fazem a respeito. Não se espera outra coisa do PT e da coalizão de peemedebês aboletada no governo, que, enfim, são governistas, embora pudessem demonstrar um pouco de vergonha na cara e altivez) em relação aos decretos do Executivo. Mas quede a oposição?

Está tão dedicada a manobras e mutretas quanto o petismo-peemedebismo, ambos mergulhados na tarefa de livrar a cara dos desclassificados piores pegos nus na cachoeira ou na mensalagem.

Além de ínfima, inoperante e dedicada a críticas de um oportunismo mesquinho e oligofrênico, a oposição, diga-se logo o PSDB, ainda se finge de morta diante de casos como o desse notório deputado Lereia, declarado "amigo pessoal" desse Cachoeira, ou do enroladíssimo Marconi Perillo, governador de Goiás.

É degradante: portanto talvez condizente mesmo com a atitude de gente que tolerou o mensalão mineiro de Eduardo Azeredo, para ficar numa história mais conhecida.

Parece, pois, tolice ingênua esperar que essa gente pequena se organize para debater economia ou qualquer coisa, criticar Dilma, chamar notáveis para pensar alternativas.

Vez e outra, alguns dos melhores pensadores tucanos se encontram no Instituto FHC. Mas debates assim são, em termos políticos, quase clandestinos, para poucos.

Se não fosse tanta a preguiça, a burrice e a falta de imaginação, o PSDB poderia juntar seu quadros pensantes restantes e fazer barulho na mídia, suscitar algum debate sério, mas politicamente relevante e audível. Debate: não essas idiotices sobre "meter a mão no bolso do povo" (como a "crítica" à mexida na poupança"). Mas quede?


vinit@uol.com.br  
Publicado na Folha de S.Paulo, em 13/05/2012.

O choque ideológico do século 21?

Moisés Naím



Os confrontos da humanidade costumavam ser causados por disputas religiosas, pela captura de novos territórios e suas riquezas ou pela ideologia. As cruzadas, as guerras entre os diferentes papados, as expansões de impérios e as guerras de independência servem de exemplos.

No século passado, tivemos os nazistas contra os aliados, a União Soviética e seus satélites contra os Estados Unidos e seus aliados, o capitalismo contra o comunismo, democracias contra regimes autoritários e inúmeros outros conflitos.

A segunda década do século 21 está nos trazendo um confronto novo, surprendente e insólito: o da austeridade contra o crescimento. De um lado estão aqueles que defendem a ideia de estimular as economias para -acima de tudo- criar postos de trabalho para os milhões de desempregados da Europa e de outros países com economias estagnadas. O novo presidente da França, François Hollande, é uma das figuras mais representativas dessa nova perspectiva, assim como meu colega de página aos sábados, o Nobel de Economia Paul Krugman.

Do outro lado estão aqueles que batalham pelo retorno à estabilidade econômica, a qual, segundo eles, requer reduzir a diferença entre a arrecadação e os gastos dos governos e o endividamento do setor público. São os defensores da austeridade fiscal, comandados, como sabemos, pela chanceler [primeira-ministra] alemã, Angela Merkel. Mitt Romney e o Partido Republicano dos EUA também estão nesse campo.

Tanto os partidários do crescimento quanto seus rivais defensores da austeridade recentemente receberam apoio de grupos que talvez preferissem não ter como aliados.

Nas recentes eleições gregas, graças ao seu repúdio às medidas de austeridade, a extrema esquerda -que inclui o muito tradicional e agora quase irrelevante Partido Comunista- conquistou sucesso sem precedentes (elegendo 50 deputados), e o mesmo vale para o partido neonazista Aurora Dourada, que deterá 21 cadeiras. É isso mesmo: comunistas e neonazistas unidos no repúdio à austeridade e no apoio ao crescimento a qualquer custo.

Do outro lado, o movimento Tea Party, nos Estados Unidos, iça com entusiasmo e radicalismo semelhantes a bandeira da austeridade -a qualquer custo, e não importam as consequências sociais.

Gianni Riotta, um dos mais lúcidos analistas europeus, me disse que "austeridade e crescimento são os dois únicos partidos que definem a política do mundo ocidental hoje em dia. Esse confronto decidiu a eleição entre Hollande, Sarkozy, Le Pen e Mélenchon, na França, e na Espanha deu a vitória a Rajoy".

"O mesmo tema terá papel decisivo na disputa presidencial entre Barack Obama e Mitt Romney nos Estados Unidos e no confronto entre a chanceler Merkel e seu rival social-democrata na Alemanha. Na Itália, a sucessão de Mario Monti como chefe de governo também dependerá do debate entre austeridade e crescimento", prossegue ele.

Quem teria imaginado que, no século 21, o principal debate do mundo ocidental se reduziria a tomar partido quanto à melhor política monetária, de câmbio e fiscal? É uma vergonha.


@ moisesnaim

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Publicado na Folha de S.Paulo, em 11/05/2012.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Nanda e Freixo

Caetano Veloso



Fernanda Torres, um fenômeno de talento cênico, impressiona também pela lucidez com que pensa, fala e escreve. Eu, que aqui exponho tão repetidas vezes os males de uma tradição retórica fincada no barroco do Padre Antônio Vieira, invejo a clareza dela. Num artigo seu que acabo de ler na “Folha de S.Paulo”, Nanda fecha a lúcida apreciação que fez do encontro em torno de Marcelo Freixo, pré-candidato à Prefeitura do Rio, a que ela foi convidada, com a constatação de que “o problema é que a política não tem centro”. Ela estava se referindo à dificuldade de se decidir por um candidato que parece recusar-se a se abrir ao interesse privado, quando os que não temem parecer presa destes se mostram dinâmicos e positivos. Em suma, ela (que descrê da força da opinião de artistas sobre os eleitores) compara a reunião com Freixo a outra a que também compareceu e que se dava em torno de Sérgio Cabral. Ficou-lhe a impressão de que Freixo representaria a militância imaculada e o isolamento, ao passo que Cabral (“apesar de e por causa de Paris”) seria mais realista.

Talvez — e para ser fiel a minha retórica barroca — eu deva começar a comentar pela conclusão. Será verdade que não há centro em política? Suponho que os ideólogos fingem que não existe centro para a realidade, complexa, não atrapalhar seus argumentos. Mas a vida política real tende a arrastar tudo para o centro. Felizmente. Claro que há momentos revolucionários e cristalizações de mitos conservadores ou regressivos. Sabemos que houve Sierra Maestra e que houve Auschwitz. Mas são momentos de exceção. Zizek e Badiou gastam páginas e páginas para nos contaminar com a nostalgia das revoluções comunistas (Zizek tenta nos convencer de que não se pode equiparar as marchas da Corei do Norte às paradas nazistas). Mas a política pedestre de todos os dias, de todas as eleições, as decisões tomadas em nome do que aprendemos a chamar de democracia, são medianas. Não é só nos EUA que um Santorum tem de cair fora para deixar o moderado Romney tentar derrubar Obama. Os governos socialistas europeus (de Mitterrand a Zapatero) chegaram ao poder para pôr em prática políticas que, se fossem defendidas pelo centro ou pela direita, seriam recusadas. A Carta aos Brasileiros de Lula não foi diferente. Lula só saiu dos 30% que mantinha em todas as eleições que perdeu porque se comprometeu em manter a responsabilidade econômica iniciada com o Real. E se manteve no poder porque fez acertos e acordos com amplo leque de grupos políticos.

Nanda parece equacionar esquerda com pureza e direita com corrupção. Mas ela chama cada uma delas, sabiamente, de “velha”: velha esquerda e velha direita, das quais ela confessa não gostar. O que parece tornar as coisas difíceis para ela é que nem Sérgio Cabral representa a velha direita nem Freixo a velha esquerda. São figuras tipicamente contemporâneas. Ela escreve como se o componente de corrupção fosse incontornável e a ambição de pureza inatingível. O que me soa bastante sensato. Mas a política também se faz de altas apostas, de ambições que podem parecer grandes demais. De minha parte, vejo que atravessamos um período em que nos debatemos para sair do baixíssimo nível moral em que se dá o trato da coisa pública entre nós. Percebo que Nanda está sofrendo mais por não poder decidir-se a votar num Freixo e, assim, deixar de reeleger quem já está perto dos responsáveis pelas UPPs, pela vinda de Beltrame para o Rio e pela “euforia” que tomou o Rio de Janeiro nos últimos dois anos. Mas o artigo dela também sugere que todas essas conquistas têm o preço incontornável do caixa dois, da propina, da sujeira.

Ora, o PSOL é o partido da “pureza”. Foi por não aceitar as concessões do PT quando chegou ao poder central que esse partido surgiu. A mim, agrada-me que eles tenham posto a palavra “liberdade” em seu nome. Mas pureza revolucionária não é meu lance. Freixo se impôs por sua capacidade de mudar o tom do ambiente político do Rio. Em pouco tempo, ele chegou à façanha de criar a CPI das Milícias. É um homem que entrou na Alerj com pedido de CPI sobre as relações da Delta com os governos do Rio de 2000 até nossos dias. Sua atuação na discussão sobre segurança pública e direitos humanos no ambiente legislativo marcou a vida política da cidade. Ou seja, da afirmação de gente como ele depende a política brasileira. Mas Nanda sabe que eu sou esquisitíssimo. Por exemplo: tomei ojeriza a Garotinho, mas nunca voltei a ter por Cesar Maia o horror que lhe tinha quando ele primeiro se candidatou. Seu terceiro mandato foi o que terceiros mandatos se arriscam a ser: cansado. Mas, como Freixo, acho que a Cidade da Músic deve ser concluída e ativada. E leio sempre o Ex-Blog, com proveito.

Ouvi Freixo na casa de Wagner Moura, antes dessa reunião a que Nanda se refere (e para a qual fui eu que a convidei). Ele explicava que não se esquiva de aproximação com empresários. Apenas é claro que, num momento de précampanha, o PSOL só pode aceitar contribuições de pessoas físicas. Mas ele conversa com empresários, sobretudo aqueles que estão cansados dos esquemas viciados ainda em vigor. Quando chegar a hora, muitos deles poderão doar para a campanha. Sou 100% Freixo. E quero convencer Nanda de que ele tem diálogo com empresários e, mais importante, não é querido só de artistas: sua atuação deixou marcas na população pobre, que o conheceu antes de nós.


Publicado em O Globo, em 13/05/2012.

A cruz e a caldeirinha

Fernanda Torres



Foi-se o tempo em que as causas ganhavam força graças ao apoio de artistas. A melodramática chamada da internet com atores protestando contra a usina de Belo Monte deu mais consistência aos que defendem a obra do que ao lado que a promoveu.

Diariamente, somos convidados para nos engajar em lutas, mas é preciso pensar 20 vezes; o mundo não é mais tão preto no branco quanto costumava ser.

Com essa descrença, fui a um encontro com alguns representantes da cultura em torno da pré-candidatura do deputado Marcelo Freixo à Prefeitura do Rio. Fui como carioca. Tenho grande receio de impor minhas convicções a terceiros, se é que elas existem.

A próxima eleição será vencida por Eduardo Paes. Ele conta com uma coligação de 15 partidos, 14 minutos na TV, além de estar alinhado com o governador Sérgio Cabral, responsável pela vinda de José Mariano Beltrame para a Secretaria de Segurança Pública, pela abertura de diálogo com o Planalto e pelas promessas de capital.

A questão em outubro será a realização ou não de um segundo turno. O Rio é assombrado pelo populismo moreno do PDT e pela eterna política de interesses do PMDB.

O primeiro nos deixou reféns de Anthony Garotinho por quase uma década, e o segundo tem chances de se perpetuar no trono por merecimento. A política vive da dialética, o poder absoluto é perigoso até para os que o detêm. Se a alternativa para a oposição for a herança de Garotinho e Cesar Maia, melhor se atirar pela janela.

Marcelo Freixo surge como um político vocacionado, idôneo e obstinado, voltado para a recomposição do papel do Estado. Com grande experiência no confronto com as milícias, Freixo tem muito a dizer sobre a destituição do poder público, a corrupção eleitoral, a atividade mafiosa, o favorecimento de empresas privadas e os instrumentos para detê-los.

O deputado cobra um investimento mais consistente nas UPPs sociais, para barrar o avanço dos milicianos nas áreas ocupadas, e propõe uma investida contra os dois grandes braços da contravenção fluminense, plantados, segundo Freixo, nas áreas da saúde e do transporte.

Tudo conspira para inviabilizar a trajetória de quem não quer, ou não pode, contar com o caixa dois. A ilegalidade virou norma. Vê-se com naturalidade o anseio do empresariado de receber vantagens nas licitações de infraestrutura em troca do apoio financeiro de campanha. É assim. A árvore de Natal de atravessadores corrói as verbas e retribui com superfaturamento e hospitais fantasmas.

O PSOL, partido pelo qual o deputado pretende se candidatar, não fez alianças e não aceita apoio de grupos privados. A saída para enfrentar o custo exorbitante da máquina virá das redes sociais e do engajamento de pessoas físicas.

Não compactuo com o troca-troca de favores que rege a política, mas a militância imaculada, o isolamento por medo do contágio pode ser tão paralisante quanto a malversação. A exemplo de Marina, é preciso que Freixo e o PSOL encontrem fatias mais consistentes da sociedade alinhadas com a vontade de ver cumpridas as leis. Economistas, doutores, estudantes da PUC e da UFRJ.

Estive em uma reunião parecida com Sérgio Cabral, a propósito justamente da ocupação social nas áreas retomadas. A explanação de Cabral -apesar de e por causa de Paris- era dinâmica e positiva.

Freixo tem a difícil tarefa de fugir do papel de Cassandra, daquele que, em meio a tanta euforia, só fala em mazelas.

Sou a favor de um segundo turno e do surgimento de uma terceira via na Guanabara. Freixo é um deputado precioso, que pôs a vida em risco, enfrentando a truculência da polícia marrom.

Concordo que o Estado deva proteger setores estratégicos como a segurança, a saúde e a educação. A ideia da cidade como negócio, do privado ditando a agenda do público, faz circular o dinheiro, mas pode se revelar tão nociva quanto a morosidade das antigas repartições.

Mas a candidatura para um cargo administrativo como a prefeitura exige a abertura para o interesse privado. Não gosto da velha direita, mas tampouco me seduz a velha esquerda. O problema é que a política não tem centro.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 11/05/2012.

Alô, Dilma! Obama saiu do armário

Barbara Gancia



Como na final da Copa de 70, na morte de Lennon e no choque na Tamburello, vou lembrar para sempre de onde estava na última terça-feira.

"Você não está falando sério?", foi a única frase que consegui balbuciar antes de deixar meus joelhos cederem e cair sentada sobre a cama diante da TV ligada na CNN na reprise da entrevista à rede ABC, que mostrava o presidente dos Estados Unidos dizendo abertamente ser a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Meus olhos encheram de água e eu não consegui mais emitir um pio (milagres existem) enquanto tentava absorver a enormidade do acontecimento.

Mesmo para o país que se vangloria de exportar a liberdade como commodity, a gente não imaginaria uma declaração dessa monta da boca de um presidente. Nos últimos anos, os republicanos mais radicais tentaram apresentar leis que iam do direito de despedir gays por justa causa até expulsar filhos homossexuais de casa.

"Que coragem tem esse Obama!", pensei. A comentarista da CNN aventou a possibilidade de que o presidente estivesse tentando uma jogada eleitoreira.

Hmmm. Barack diz ter agido com base em princípios e não visando a eleição. Sua ficha corrida em relação aos gays parece comprovar o que diz. Apesar de ter esperado até esta semana para sair do armário (são quase quatro anos de mandato, mas, neste caso, parecem séculos), ele tem avançado as políticas em benefício dos homossexuais. Acabou com o "Don't ask, don't tell", a solução com desvio tipicamente clintoniano para lidar com a convivência entre gays e não gays nas casernas, assinou lei criminalizando a homofobia no país, concedeu direitos de visita a casais gays em hospitais, aboliu a proibição de portadores de HIV de viajar ao exterior, passou a reconhecer gays e casais gays nos dados do censo e expandiu a ajuda humanitária a gays nas ações internacionais.

Vamos ao que nos interessa. Todas as religiões têm de ser respeitadas, mas tanto nos EUA quanto no Brasil nós estamos falando de estados laicos. E, nos dias de hoje, o obscurantismo e a manipulação não colam mais nem mesmo nas ditaduras do Oriente Médio, que dirá em países onde há presidentes que personificam a superação do preconceito e do ódio.

De nossa Dilma, tão icônica quanto Obama, todos conhecem as convicções pessoais. E é por isso mesmo que nós não podemos mais aceitar que ela balance feito um joão-bobo em questões fundamentais como o aborto e os direitos dos homossexuais.

O prestígio atual e a história da presidente conferem a ela a obrigação moral de iniciar a conversa sobre esses temas cabeludos. Não dá para voltar atrás a cada cinco minutos ou calar porque ela não quer melindrar uma bancada à qual nem mesmo pertence. Ou será que a Dilma virou uma espécie de Pelé dos anos 70 e vai nos dizer que o país não está preparado para essa discussão? Nem o Pelé pensa mais esse tipo de coisa, ora bolas!

Quando será a hora certa então? Alô, dona Dilma! A senhora está esperando o quê?

Parece que no Brasil só existem dois assuntos: corrupção e economia. Economia e corrupção. E dane-se o resto. Daí chega a eleição e não sobrou tempo para mais nada.

Nos EUA, o presidente negro e idealista está fazendo os jovens gays andarem de cabeça erguida e os pais gays saírem à luz do dia. E a senhora, dona presidente mulher e ex-prisioneira política, vai começar a combater o preconceito quando?


@barbaragancia
Publicado na Folha de S.Paulo, em 11/05/2012.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Pobres bancos

Vladimir Safatle


Quando o governo resolveu, enfim, denunciar a "lógica perversa" que guia o sistema financeiro brasileiro, era de esperar que os consultores e economistas regiamente recompensados pelos bancos aparecessem para contemporizar. Como em uma peça de teatro na qual as máscaras acabam por cair, foi isto o que ocorreu.
Há algo de cômico em ver adeptos do livre mercado e da concorrência procurando argumentos para defender uma banca de oligopólio especializada em espoliar os brasileiros com "spreads" capazes de deixar qualquer banco mundial corado de vergonha.
Se os bancos brasileiros estão entre os que mais lucram no Universo, é porque nunca precisaram, de fato, viver em um sistema no qual o poder estatal impediria a extorsão institucionalizada à qual ainda estamos submetidos.
No mundo inteiro, o sistema bancário faz jus à frase do dramaturgo Bertolt Brecht: "O que é roubar um banco se você imaginar o que significa fundar um banco?".
Nos últimos anos, vimos associações bancárias com comportamentos dignos da máfia, pois são especializadas em maquiar dados e balanços, criar fraudes, ajudar a evasão fiscal, operar em alto risco e passar a conta para a frente, além de corromper entes públicos.
Mas a maior astúcia do vício é travestir-se de virtude. Assim, o sistema financeiro criou a palavra "austeridade" a fim de designar o processo de assalto dos recursos públicos para pagamento de rombos bancários e "stock-options" de executivos criminosos, com a consequente descapitalização dos países mais frágeis.
Se não tivemos algo da mesma intensidade no Brasil, vemos agora um processo semelhante do ponto de vista retórico. Assim, os "spreads" bancários seriam o resultado indigesto do risco alto de inadimplência, já que a população brasileira teria o hábito pouco salutar de não pagar suas dívidas e se deixar endividar além da conta.
Neste sentido, os lucros bancários seriam (vejam só vocês) o remédio amargo, porém necessário, até que a população brasileira aprenda a viver com o que tem e assuma gastos de maneira responsável. O mais impressionante é encontrar pessoas que se acham capazes de nos fazer acreditar nessa piada de mau gosto.
A verdade é que quanto menos poder e margem de manobra o sistema financeiro tiver, melhor é a sociedade. Há sempre aqueles "consultores" que dirão: "É fácil falar mal dos bancos", apresentando o espantalho do populismo. A estas pessoas devemos dizer: "Sim, é fácil. Ainda mais quando não se está na folha de pagamento de um". Já sobre o "risco" do populismo, pobres são aqueles para os quais a defesa dos interesses econômicos da população sempre é sinal de irracionalidade.

Publicado na Folha de S. Paulo, em 08/05/2012.

Não, eu não estou disponível

Luli Radfahrer


Há mais ou menos um século, em uma Viena tão ou mais cosmopolita do que qualquer uma das novas cidadelas virtuais, são Freud tentava explicar um fenômeno que já incomodava muita gente: o esquartejamento do homem contemporâneo entre duas forças antagônicas, o corpo e o outro.

Chamadas na época de id e superego, essas demandas ganharam dezenas de nomes ao longo das décadas, mas não perderam importância. Ao contrário, à medida que a superconexão das redes concatena boa parte dos ambientes de interação, cresce a pressão social para um comportamento mais pragmático, funcional, onipresente, onisciente, onipotente e disponível.

Não é mais permitido a um indivíduo razoavelmente integrado estar desconectado ou alheio aos fatos, ignorante de acontecimentos, incapaz de realizar uma tarefa.

O acesso móvel propiciado por tablets e smartphones e o conhecimento instantâneo disponibilizado nos vídeos no YouTube e nos verbetes da Wikipédia acabaram com a época do "não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe". Hoje todos são compelidos a saber, opinar, compartilhar, blogar e retuitar, mesmo que não façam a mais pálida ideia do assunto abordado.

A angústia perante a impossibilidade da empreitada é natural. A ignorância, antes considerada uma bênção, foi transformada em maldição, obrigando a todos que nasçam prontos, especialistas. O resultado, previsível, é um enorme conflito entre demandas e capacidades, obrigando cada indivíduo a empacotar a informação que recebe o mais rápido possível e transmiti-la para grupos cada vez maiores de pessoas que fazem o mesmo, em um tsunami de meias-verdades, preconceitos, informações rasas e citações fora de contexto.

Por mais que entusiastas de mídias sociais classifiquem essa prática como uma formação de opinião mais democrática, inovadora e aberta, a realidade a transforma em um tipo vicioso de fofoca, terreno fértil para todo tipo de boataria, casa de doidos em que todos falam para ninguém escutar.

Na velocidade e na pressão das redes de compartilhamento, a informação gratuita perde seu valor. Sem tempo, foco ou referências de qualidade, não há como estabelecer uma reflexão sólida. O resultado é uma espécie de histeria coletiva, combustível social à espera do primeiro estopim que a incendeie.
A história mostra vários momentos cuja energia foi inversamente proporcional à razão. Por mais que tivessem potencial construtivo, a maioria foi aniquilada ou acabou em regimes totalitários.

Dicionários e enciclopédias foram feitos para serem consultados, não decorados. Quando a opinião de especialistas é trocada pela voz coletiva das ruas, corre-se o risco de ignorar os fatos para perpetuar mitos e falsas verdades. Não há revista científica que comprove os malefícios do leite com manga, mas todos ouvimos essa história "em algum lugar" parecido com o Google.

A única saída possível para preservar a sanidade está em desenvolver o espírito crítico. Isso não demanda atitudes reacionárias, mas uma seleção da informação recebida, da relevância de sua fonte e, acima de tudo, se cabe a você tomar alguma atitude com relação a ela ou se é mais saudável ignorá-la.

Publicado na Folha de S. Paulo, em 07/05/2012.

terça-feira, 8 de maio de 2012

A eleição de Hollande traz novos ares para a Europa

Gilles Lapouge





Nicolas Sarkozy derrotado. François Hollande será o presidente pelos próximos cinco anos. Os socialistas retornam ao centro do jogo. O último e único presidente socialista desde 1958 foi François Mitterrand, em 1981, que governou até 1995. Em seguida, houve Jacques Chirac e, então, Sarkozy, de direita.

Para os socialistas, a vitória pareceu o reencontro com sua própria história. Domingo, eles relembraram aquela noite de 1981 em que Mitterrand comemorou o triunfo diante de uma multidão enlouquecida na Praça da Bastilha.

Nessa mesma praça, depois da vitória, Hollande foi ao encontro do povo. O mimetismo foi impressionante. Não só porque Hollande parece uma "cria" de Mitterrand - a ponto de copiar a maneira de falar de Mitterrand -, mas o próprio céu resolveu colaborar. Se, para Hollande, a noite da vitória estava carregada de nuvens negras, na da vitória de Mitterrand caiu um dilúvio.

Com uma diferença: em 1981, os partidários de Mitterrand gritavam em meio ao vendaval: "Mitterrand, o sol!" Este ano, ninguém no meio da multidão da Bastilha teve a ideia maluca de gritar: "Hollande, o sol!" E por várias razões. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que o novo presidente, com sua aparência de tabelião do interior ou de caixa de banco, não é um sujeito capaz de chamar de volta o sol que já se foi. Além disso, ele chega ao posto num momento dramático da história da França e da Europa.

Quando um novo presidente assume o poder, instaura-se aquele "estado de graça". Por algumas semanas, a paisagem parece sorrir. Para Hollande, porém, não haverá "estado de graça". Ele recebe um país deteriorado e em frangalhos, com uma economia em desordem, uma alta taxa de desemprego, déficits comerciais cada vez maiores e um endividamento vertiginoso.

Qual o motivo de tamanha catástrofe? Em parte, por causa da gestão caótica de Sarkozy, mas também por causa da crise e da deterioração da Europa toda, particularmente dos países que compõem a zona do euro: Grécia, Itália, Espanha, Irlanda e até a Holanda.

As primeiras semanas de Hollande serão, portanto, inteiramente dedicadas a tapar os buracos por onde o barco faz água. Como lançar novos programas quando todos os fundamentos da economia estão ameaçados? Por outro lado, ao mesmo tempo, Hollande será obrigado a compartilhar cada uma das suas iniciativas com seus parceiros europeus, os da União Europeia, do euro e do Ocidente atlântico.

Ocorre que ele não é visto com bons olhos pelos vizinhos. A Europa é governada, na maior parte, por conservadores: Grã-Bretanha, Alemanha, Itália, Espanha. Na Grécia, até agora, dominava a direita, mas as eleições de domingo deixam prever um período conturbado.

A Europa era favorável a Sarkozy. Não gostava de Hollande. A ideia de ter um socialista em um dos dois países mais importantes da Europa era rejeitada pela maioria. A alemã Angela Merkel não só não quis receber o "candidato" Hollande como tomou partido de Sarkozy. O britânico David Cameron tampouco quis recebê-lo. Nos EUA, Barack Obama fez o mesmo. Washington mandou dizer que se ele fosse para lá, não poderia se encontrar com o presidente. Hollande não foi.

Nesse ponto é fácil perceber a incompetência dos grandes governantes. Ou talvez de seus embaixadores. Há três meses, o mundo via que, embora Hollande não estivesse com a vitória garantida, tinha boas chances. Os diplomatas, porém, comportaram-se como cegos e surdos, burros como portas. Ou limitaram-se a dizer a Merkel e a Cameron o que Merkel e Cameron queriam ouvir.

Por isso, na noite da vitória, esse pequeno mundo sofreu uma formidável virada. Merkel telefonou a Hollande para chamá-lo a Berlim. Obama também o convidou para participar da reunião do G-8 em Washington e se encontrará com ele no dia 19 em Camp David.

Novas ideias. Bastaram alguns segundos, na noite de 6 de maio, para que Hollande deixasse de ser uma "nulidade" e se tornasse uma pessoa frequentável e até mesmo notável. Nota zero para Merkel, Cameron e Obama. Há semanas, Hollande dizia em seus discursos que a gestão da Europa pela dupla Merkel-Sarkozy não era bem-sucedida. Os dois gurus da UE e do euro haviam optado por ministrar ao Velho Continente um remédio cavalar, programas de austeridade desumanos, capazes de curar a Grécia e a Espanha, mas até a morte.

Hollande sempre foi contra essa política de austeridade extrema. Ele defende que, quando o rigor é inevitável, deve estar acompanhado por medidas aptas a relançar a produção dos países em dificuldade. Ninguém o levou a sério. Cameron virava o rosto. Merkel dava de ombros e telefonava para Sarkozy.

No entanto, há alguns dias, e principalmente depois que Hollande ganhou no primeiro turno, as capitais europeias, pressionadas pela revolta brutal dos cidadãos na Grécia, na Itália, na Espanha e até mesmo na Inglaterra, questionam se, no fundo, Hollande não seria menos idiota do que parece.

Desde a noite de domingo, os governos de direita, que estão no poder na Espanha e na Itália, não param de pensar nas ideias de Hollande. A própria Angela Merkel, guardião da ortodoxia econômica, o rigor em pessoa, de repente, considerou que não seria tão incoerente dar um empurrão nos seus planos de rigor com iniciativas em favor do crescimento.

Agora, François Hollande, tão desacreditado por todos, está prestes a constituir uma espécie de alternativa ao poder dominante de Merkel. Evidentemente, ela ficará com o mínimo. Por exemplo, Hollande pretende uma revisão do pacto orçamentário assinado em março pelos membros da União Europeia, a pedido de Merkel e de Sarkozy.

Evidentemente, Merkel não aceitará nenhuma revisão. Quando muito, aceitará acrescentar ao tratado drástico o que ela chama de um "pacto de crescimento", mas nada muito expressivo. A diferença é que Hollande, na visão de um keynesiano, gostaria de voltar a fazer funcionar o motor gasto da Europa revigorando a oferta.

Ele sonha com uma espécie de New Deal europeu, nos mesmos moldes do grande programa de criação de infraestruturas elaborado por Franklin Roosevelt, que tirou os Estados Unidos da crise dos anos 30, modelo que Merkel, até agora, sempre recusou.

Será que Hollande conseguirá impor suas ideias numa Europa paralisada por dois anos de operações de salvamento inúteis e desastrosas para a Grécia? Nada garante uma política de "relançamento" em um continente em recessão (exceto na Alemanha).

Deve-se esperar, pelo menos, o surgimento de um novo pensamento político-econômico, de um pensamento diferente do de madame Merkel. Alguma coisa que permita rearrumar o terreno do jogo e substituir o "pensamento único" imposto por ela e por Sarkozy. Um pensamento diferente, colorido, contraditório, diversificado, certamente mais criativo, mais perigoso e mas mais fecundo. 



Tradução de ANNA CAPOVILLA

Publicado em O Estado de S.Paulo, 08/05/2012.



Esses europeus revoltados

Paul Krugman


 

Os franceses vão se revoltando. Os gregos, também. E já não era sem tempo.

Os dois países realizaram eleições no domingo que foram, na verdade, referendos sobre a estratégia econômica europeia corrente, e nos dois países os eleitores viraram os dois polegares para baixo. Não está claro em que prazo os votos produzirão alterações na política real, mas o tempo está claramente se esgotando para a estratégia de recuperação via a austeridade - e isso é uma coisa boa.

Nem seria preciso dizer, não foi o que se ouviu dos suspeitos usuais nas corridas eleitorais. Na verdade, foi até um pouco engraçado ver os apóstolos da ortodoxia tentando retratar o cauteloso e polido François Hollande como uma figura ameaçadora. Ele é "bastante perigoso", declarou The Economist, que observou que Hollande "genuinamente acredita na necessidade de criar uma sociedade mais justa". Quelle horreur! O que é verdade é que a vitória de Hollande significa o fim de "Merkozy", o eixo franco-alemão que aplicou o regime de autoridade nos dois últimos anos. Isso seria um desenvolvimento "perigoso" se essa estratégia estivesse funcionando, ou mesmo tivesse uma chance razoável de funcionar. Mas não está e não tem; a hora é de avançar. Os eleitores da Europa, como se viu, são mais sábios que os melhores e mais brilhantes do Continente.

O que está errado na receita de cortar despesas como o remédio para os males da Europa? Uma resposta é que a fada da confiança não existe - isto é, as afirmações de que cortar os gastos de algum modo encorajaria consumidores e empresas a gastarem mais têm sido arrasadoramente refutadas pela experiência dos dois últimos anos. De modo que cortar gastos em uma economia deprimida apenas aprofunda a depressão.

De mais a mais, parece haver pouco ganho, se houver algum, em troca dos sofrimentos. Considere-se o caso da Irlanda, que foi um bom soldado nesta crise, impondo uma austeridade cada vez mais dura na tentativa de recuperar as graças dos mercados de bônus. Segundo a ortodoxia dominante, isso deveria funcionar. Aliás, o desejo de acreditar é tão forte que membros da elite política europeia continuam proclamando que a austeridade irlandesa de fato funcionou, que a economia irlandesa começou a se recuperar.

Mas não começou. E embora não se saberia disso pela cobertura da imprensa, os custos de captação de empréstimos pela Irlanda continuam muito mais altos que os de Espanha ou Itália, para não falar da Alemanha. Então, quais são as alternativas? Uma resposta - uma resposta que faz mais sentido do que quase ninguém na Europa está disposto a admitir - seria o desmantelamento do euro, a moeda comum europeia. A Europa não estaria nesses apuros se a Grécia ainda tivesse seu dracma, a Espanha sua peseta, a Irlanda seu pint, e assim por diante, porque Grécia e Espanha teriam o que agora lhes falta: uma maneira fácil de recuperar a competitividade de custos e incrementar as exportações, a saber, a desvalorização.

Como contraponto à história triste da Irlanda, considere-se o caso da Islândia, que foi o marco zero da crise financeira, mas conseguiu responder desvalorizando sua moeda, a coroa (e também teve a coragem de permitir que seus bancos quebrassem e dessem calote em suas dívidas). A Islândia está seguramente experimentando uma recuperação que a Irlanda supostamente devia estar, mas não está.

O desmantelamento do euro seria altamente disruptivo, contudo, e representaria uma enorme derrota para o "projeto europeu", o esforço de longo prazo para promover a paz e a democracia mediante uma maior integração. Haverá outro caminho? Sim, há - e os alemães mostraram como esse caminho pode funcionar. Infelizmente, eles não compreendem as lições de sua própria experiência.

Quando se conversa com dirigentes alemães sobre a crise do euro, eles gostam de apontar que sua própria economia estava na lona nos primeiros anos da década passada, mas conseguiu se recuperar. O que eles não gostam de reconhecer é que essa recuperação foi impulsionada pelo surgimento de um enorme superávit comercial alemão ante os outros países europeus - em particular, ante as nações hoje em crise - que estava se expandindo, e experimentando uma inflação acima da normal, graças às baixas taxas de juros. Os países da crise da Europa deveriam ser capazes de imitar o sucesso da Alemanha se enfrentassem um ambiente comparativamente favorável - isto é, se desta vez fosse o restante da Europa, especialmente a Alemanha, que estivesse experimentando um pequeno boom inflacionário.

De modo que a experiência da Alemanha não é, como os alemães imaginam, um argumento para a austeridade unilateral no sul da Europa; é um argumento para políticas muito mais expansionistas alhures e, em particular, para o Banco Central Europeu (BCE) dar um fim na sua obsessão por inflação e se concentrar no crescimento.

Os alemães, é dispensável dizer, não gostam dessa conclusão, e os dirigentes do BCE tampouco. Eles se aferrarão a suas fantasias de prosperidade pela via dos sacrifícios, e insistirão em que dar continuidade a suas estratégias fracassadas é a única coisa responsável a fazer. Mas tudo indica que eles não terão mais um apoio inconteste do Palácio do Eliseu. E isso significa, acreditem ou não, que tanto o euro como o projeto europeu têm agora uma chance melhor de sobreviver do que tinham alguns anos atrás. 



Tradução de CELSO PACIORNIK

Publicado em O Estado de S.Paulo, 08/05/2012.


Dialética da mudança

Ferreira Gullar


Certamente porque não é fácil compreender certas questões, as pessoas tendem a aceitar algumas afirmações como verdades indiscutíveis e até mesmo a irritar-se quando alguém insiste em discuti-las. É natural que isso aconteça, quando mais não seja porque as certezas nos dão segurança e tranquilidade. Pô-las em questão equivale a tirar o chão de sob nossos pés.
Não necessito dizer que, para mim, não há verdades indiscutíveis, embora acredite em determinados valores e princípios que me parecem consistentes. De fato, é muito difícil, senão impossível, viver sem nenhuma certeza, sem valor algum.
No passado distante, quando os valores religiosos se impunham à quase totalidade das pessoas, poucos eram os que os questionavam, mesmo porque, dependendo da ocasião, pagavam com a vida seu inconformismo.
Com o desenvolvimento do pensamento objetivo e da ciência, aquelas certezas inquestionáveis passaram a segundo plano, dando lugar a um novo modo de lidar com as certezas e os valores.
Questioná-los, reavaliá-los, negá-los, propor mudanças às vezes radicais tornou-se frequente e inevitável, dando-se início a uma nova época da sociedade humana. Introduziu-se o conceito não só de evolução como o de revolução.
Naturalmente, essas mudanças não se deram do dia para a noite, nem tampouco se impuseram à maioria da sociedade. O que ocorreu de fato foi um processo difícil e conflituado em que, pouco a pouco, a visão inovadora veio ganhando terreno e, mais do que isso, conquistando posições estratégicas, o que tornou possível influir na formação de novas gerações, menos resistentes a visões questionadoras.
A certa altura desse processo, os defensores das mudanças acreditavam-se senhores de novas verdades, mais consistentes porque eram fundadas no conhecimento objetivo das leis que governam o mundo material e social.
Mas esse conhecimento era ainda precário e limitado. Basta dizer que, até começos do século 20, ignorava-se a existência de microrganismos -como vírus e bactérias-, o que inviabilizava tratar doenças como a tuberculose.
Costumo dizer que o poeta Augusto dos Anjos foi assassinado pelo tratamento médico de uma pneumonia: submeteram-no a sangrias e lavagens intestinais, debilitando-o mais, ou seja, anularam-lhe as defesas naturais e o desidrataram.
A descoberta dos vírus e bactérias como causas de muitas e graves enfermidades possibilitou a produção dos antibióticos, o que representou um enorme avanço na cura desse tipo de doenças.
Igualmente significativas foram as mudanças nos terrenos econômico e político, resultantes da crítica ao capitalismo e da luta dos trabalhadores em defesa de seus direitos. O comunismo se impôs como uma alternativa à democracia burguesa e influi até hoje na visão ideológica de parte considerável da sociedade contemporânea.
Todos esses fatos -que são apenas uns poucos exemplos do que tem ocorrido- tornam indiscutível a tese de que a mudança é inerente à realidade tanto material quanto espiritual, e que, portanto, o conceito de imutabilidade é destituído de fundamento.
Ocorre, porém, que essa certeza pode induzir a outros erros: o de achar que quem defende determinados valores estabelecidos, em contraposição a outros considerados inovadores, está indiscutivelmente errado.
Em outras palavras, bastaria apresentar-se como inovador para estar certo. Será isso verdade? Os fatos demonstram que tanto pode ser como não.
Mas também pode estar errado quem defende os valores consagrados e aceitos. Só que, em muitos casos, não há alternativa senão defendê-los. E sabem por quê? Pela simples razão de que toda sociedade é, por definição, conservadora, uma vez que, sem princípios e valores estabelecidos, seria impossível o convívio social. Uma comunidade cujos princípios e normas mudassem a cada dia seria caótica e, por isso mesmo, inviável.
Por outro lado, como a vida muda e a mudança é inerente à existência, impedir a mudança é impossível. Daí resulta que a sociedade termina por aceitar as mudanças, mas apenas aquelas que de algum modo atendem a suas necessidades e a fazem avançar.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 06/05/2012.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Guerra de poderes

Hélio Schwartsman


Numa manobra que deve ter feito Montesquieu revirar-se na tumba, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou por unanimidade uma proposta de emenda constitucional (PEC) que dá ao Legislativo o poder de sustar atos normativos do Judiciário.

Se a iniciativa prosperar, o princípio da separação dos Poderes terá sofrido um sério revés. A força do Judiciário reside justamente no fato de ele ter a palavra final na interpretação da lei. A PEC, proposta pelo deputado Nazareno Fonteles (PT-PI), tem apoio da bancada evangélica, que vê nela uma chance de reverter decisões polêmicas, como o casamento gay e o aborto de anencéfalos.

O discurso do parlamentar é o favorito de 9 entre 10 conservadores: ao atuar como legislador positivo, o STF usurpa funções do Congresso. É verdade que o Supremo deveria exercer o chamado ativismo judicial com máxima moderação, mas é insustentável afirmar que a lei é a única fonte do direito. A ela se somam outras como o costume, a analogia, a doutrina e, especialmente, a jurisprudência.

Vou além. Há assuntos com que o Legislativo -no qual grupos organizados como igrejas, sindicatos e certas categorias profissionais estão super-representados- não lida bem. Questões morais são um bom exemplo. Dado que poucos legisladores querem ser identificados como o parlamentar que foi contra "a palavra de Deus" ou que rifou "as conquistas dos trabalhadores", esses temas são tratados de forma enviesada.

Também reluto em entregar a 11 pessoas não eleitas tarefas que caberiam a 594 indivíduos munidos de mandato, mas, diante das distorções, é preferível que esses 11 atuem a blindar a legislação contra avanços.

A ideia é que os três Poderes se equilibrem em um sistema de freios e contrapesos e produzam resultantes viáveis. Está longe de ser uma solução perfeita, mas ela vem funcionando mais bem do que mal em paí-ses democráticos há uns 200 anos.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 04/05/2012.

Suicídio, modo de usar

Barbara Gancia

Nossa molecada está doente. Sabemos que o drama maior é o homicídio, que extermi­na os jovens da periferia em pro­porções epidêmicas, mas agora de­mos também para ver aumentar nossos índices de suicídio.

Nos últimos tempos, até as escolas particulares, que educam nossas crianças mais bem amparadas, fo­ram castigadas pelo drama. Con­tam-se um, dois, três suicídios se­guidos -ou mortes que aparenta­ram ser propositais- nas escolas mais tradicionais da cidade.

De 1980 a 2000, no grupo dos 15 aos 24 anos, o suicídio cresceu im­pressionantes 1900%. E os índices continuam subindo. Por quê?

Bulimia, anorexia, automutila­ção, dependência, violência do­méstica, abuso físico e sexual, have­ria uma série de argumentos para explicar o fenômeno. O dr. Jair Ma­ri, professor titular da Escola Pau­lista de Medicina e pesquisador da Unifesp é especialista em doenças mentais e está preparando um es­tudo a respeito. Diz ele que o país só dedica 2% do orçamento da Saúde às doenças mentais (como depressão, dependência química, alcoolismo, esquizofrenia e bipola­ridade), enquanto outros países, como Inglaterra e Canadá, reservam 11% de seu budget para tratar e estudar esses males. "Cerca de 75% dos problemas mentais começam a se desenvolver entre os 12 e os 24 anos", diz. "E nós não estamos prestando atenção".

Em Campinas, SP, um estudo constatou que 17% da população ad­mitiu em algum momento ter tido uma ideação suicida. Dos pesquisa­dos, 5% chegaram a elaborar um plano e 2% tentaram chegar às vias de fato. O dr. Jair não concorda com a assertiva de que o bullying deve ser tratado como fato da vida, algo que sempre existiu e que certo ní­vel de agressividade faz bem ao de­senvolvimento. "A humilhação constante, especialmente agora com as redes sociais, tende a trans­formar o jovem vulnerável em um deprimido", diz.

Um estudo epigenético observou dois grupos de ratos. Uma mãe com filhotes que cuidava deles e outra que não olhava para os seus. Cons­tatou-se que o sistema neuroendócrino dos ratinhos que foram pro­tegidos desenvolveu-se melhor, prova de que o ambiente é um fator determinante no desenvolvimento mental.

Isso vem diretamente de encon­tro com o grave problema da gravi­dez na adolescência e das políticas que adotamos para enfrentar a gra­videz indesejada. Ainda assim, isso não bastaria para explicar o au­mento do suicídio entre as camadas mais amparados da sociedade.

Pois recentemente o FDA (Food and Drug Administration, órgão que regula a venda de medicamen­tos nos Estados Unidos) começou a questionar a efetividade de se mi­nistrar antidepressivos a pacientes jovens. O assunto é polêmico e está gerando rebuliço.

O que se discute é que em uma po­pulação mais propensa a compor­tamentos de risco, a retirada do medicamento depois de um perío­do de uso prolongado pode ter con­sequências. De uma hora para a ou­tra, aquele jovem vulnerável que estava amparado da dor pelo medi­camento ficará muito mais exposto à falta de estrutura para lidar com a frustração.

Teria sido melhor não dar a ele ne­nhum antidepressivo em primeiro lugar? A discussão lá nos EUA está aberta. Conversa que deveria estar mais do que encerrada por aqui é aquela sobre a de gravidez indese­jada. A corajosa ministra Eleonora Menicucci bem que poderia voltar a tocar no assunto. Caminhada ini­ciada, que se dê o segundo passo.

barbara@uol.com.br
@barbaragancia
Publicado na Folha de S.Paulo, em 04/05/2012.

sábado, 5 de maio de 2012

Cinema ou escolas?

José Pavan Júnior


O episódio da suspensão (não houve cancelamento) do Festival de Cinema de Paulínia de 2012 nos remete a uma importante reflexão mais profunda sobre a política de utilização de recursos públicos.
A reportagem "Filme queimado" (na Folha, no último dia 19) informa que o polo cinematográfico da cidade foi construído na administração passada, que ele custou R$ 490 milhões (R$ 490 milhões!) e que está subutilizado. É verdade.
Em outro trecho, o texto diz que o prédio da Escola Magia do Cinema "deu lugar a uma escola de ensino fundamental". Também é verdade.
Ocorre que, nos últimos dez anos, Paulínia (SP) não recebeu nenhuma nova escola, apesar do grande crescimento da população.
Agora, estamos entregando, no mês que vem, dois novos prédios escolares, para atender 1.800 alunos. Enquanto não ficam prontos, tomamos emprestadas as dependências da escola de cinema citada, onde centenas de meninos e meninas recebem aulas curriculares.
Mas, até o meio deste ano, o prédio será devolvido, dando continuidade a todo o trabalho que o polo cinematográfico vem fazendo: há dois filmes já em pré-produção e atendemos 2.100 alunos com aulas de dança, música, teatro e cinema. Há cursos e workshops de direção de arte, produção e fotografia, que continuam, e a temporada de concertos musicais já foi lançada. E muito mais.
A defasagem que hoje a Prefeitura de Paulínia está suprindo no atendimento direto à população não existe apenas na área de educação.
Hoje, há 1.479 casas populares em fase final de construção, duas novas creches estão em acabamento e mais 550 novas vagas em creches foram viabilizadas em convênios com escolas particulares.
O hospital atende com equipamentos de primeiro mundo. A cidade, antes poluída, ganha prêmios pela preservação do meio ambiente.
E, principalmente, há um grandioso programa de ação social que atende mais de 20 mil pessoas, com programas como o Renda da Família, o Bolsa-Educação, o Bolsa-Amamentação, a passagem de ônibus a R$ 1, a distribuição de cestas de alimentos, entre outros.
O administrador é obrigado a fazer opções. A nossa, em Paulínia, está sendo priorizar as áreas que atendem à população, principalmente aos mais necessitados.
O Festival de Cinema teria um custo direto de R$ 3,5 milhões. Mas o próprio material de captação de recursos, editado pelos organizadores, informa que "o orçamento total é estimado em R$ 8,8 milhões".
Todos sabem como são essas "estimativas". A realidade é que a captação de patrocínios só tinha conseguido contratar R$ 400 mil. A diferença fatalmente também recairia sobre os recursos municipais. Não é justo! Não é correto!
Em dezembro, um estudo qualitativo feito pelo Ibope apontou que a população da cidade está descrente e cansada do modelo administrativo que faz "foco na 'aparência' da cidade e na sua projeção nacional, em detrimento da atuação em áreas vitais para a população".
É isso que estamos mudando. Nossa administração não está aqui para defender os interesses de um grupo de cineastas, por mais que eles precisem de ajuda e contem com a nossa compreensão. Triste para eles, melhor para a população de Paulínia!

JOSÉ PAVAN JÚNIOR, 53, é prefeito de Paulínia (SP)
Publicado na Folha de S.Paulo, em 02/05/2012.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A morte de um conto de fadas

Paul Krugman



Primeiro a boa notícia: as pessoas enfim começam a admitir que as medidas de austeridade não estão funcionando. Agora a má notícia: parece haver pouca probabilidade de mudança de rumo no curto prazo.

Abril foi o mês em que a fadinha da confiança morreu.

Pela maior parte dos dois anos passados, a maioria das autoridades econômicas na Europa e muitos políticos e sabichões nos EUA estiveram cativos de uma doutrina econômica destrutiva.

De acordo com ela, os governos deveriam responder a uma severa depressão econômica não da maneira que os manuais de economia recomendam -gastando mais para compensar a queda na demanda privada-, e sim por meio de austeridade fiscal.

Os críticos alertaram desde o começo que austeridade, em um momento de depressão, só agravaria ainda mais o problema.

Mas os "austeros" insistiam em que o oposto ocorreria. Por quê? Por causa da confiança! "Medidas inspiradoras de confiança fomentarão, e não prejudicarão, a recuperação econômica", declarou Jean-Claude Trichet, então presidente do Banco Central Europeu (BCE).

Quanto à doutrina: apelos que mencionam as maravilhas da confiança teriam parecido naturais para o presidente Herbert Hoover -e confiar na fadinha da confiança funcionou tão bem para a Europa quanto havia funcionado nos EUA durante a presidência de Hoover (1929-1933). Em toda a periferia da Europa, da Espanha à Letônia, políticas de austeridade criaram crises econômicas dignas da depressão.

Nada disso deveria surpreender, já que há muito tempo é evidente que políticas de austeridade jamais cumprem o que prometem.

Mas os líderes europeus passaram anos negando o óbvio, insistindo em que suas políticas estavam para começar a funcionar, e celebrando supostos triunfos, mesmo que as provas concretas quanto a eles fossem quase invisíveis.

Um exemplo notável é a Irlanda, cujos sofridos habitantes foram mencionados como exemplo do sucesso das medidas de austeridade no começo de 2010 e no fim de 2011.

Nas duas ocasiões, o suposto sucesso se provou miragem; passados três anos da adoção de seu programa de austeridade, a Irlanda ainda não demonstrou qualquer sinal de recuperação real de uma crise que conduziu o índice de desemprego a quase 15%.

No entanto, alguma coisa mudou nas últimas semanas. Diversos eventos -o colapso do governo holandês devido a uma proposta de pacote de austeridade; o forte desempenho de François Hollande, cuja retórica é amenamente oposta à austeridade, no primeiro turno da eleição presidencial francesa; e um relatório econômico que mostra que o Reino Unido está em situação pior, na crise atual, do que a que enfrentou nos anos 30- parecem enfim ter derrubado a muralha da negação. Subitamente, todo mundo passou a admitir que a austeridade não está funcionando.

A questão agora é determinar o que farão a respeito. E a resposta, temo, será: "Não muito".

Embora os austeros pareçam ter abandonado suas esperanças, não parecem ter abandonado o medo.


Tradução de PAULO MIGLIACCI

Publicado na Folha de S.Paulo, em 28/04/2012.

Capitalismo e espiritualidade

Kátia Abreu



A crise financeira de 2008, cujos efeitos ainda abalam os mercados -e se desdobram na presente crise europeia-, não foi, como muitos sustentam, um sinal de esgotamento do capitalismo.

Ou, na síntese reducionista, "o muro de Berlim da direita".

O que fracassou não foi o capitalismo, mas o uso inadequado de suas regras mais elementares. A causa direta da crise foi a concessão, deliberada e irresponsável, de empréstimos hipotecários a credores sem meios de pagá-los, sobretudo com a alta dos juros.

Como se não bastasse, os agentes financeiros, para contornar o desastre, recorreram a novos artifícios desonestos, que apelidaram de "inovações financeiras", com o objetivo de alavancar suas operações sem ter de reservar os coeficientes de capital requeridos pelo Acordo da Basileia, cujo propósito era exatamente evitar o que se deu.

Esse princípio se baseia na ideia de que a busca da riqueza não é problema e, sim, a ganância para conquistá-la a qualquer preço.

Os bancos norte-americanos chegaram ao limite. E, para piorar o que já não era bom, decidiram securitizar os títulos podres, contra toda a ortodoxia econômica, servindo-se da cumplicidade das agências de risco, interessadas em agradar a seus clientes.

Trapaça pura.

A crise financeira norte-americana espalhou-se como metástase pelo mundo. Um de seus efeitos mais claros foi expor a fragilidade da economia europeia, também marcada por transgressões a fundamentos básicos da economia.

A crise europeia decorre da fragilidade fiscal de países como Grécia, Portugal e Itália, cujos governos gastam mais do que arrecadam. Os investidores já preveem um "default" de seus títulos de dívida.

Na base de toda essa confusão não está uma demonstração de inviabilidade do capitalismo.

Ele foi conspurcado, violado em seus princípios.

E a saída tem sido problemática devido a outro fator básico, que extrapola a ciência econômica, mas que sobre ela e toda atividade humana exerce influência vital: a quebra de confiança. Sem ela, nenhum sistema se sustenta.

Credibilidade e confiança são valores que decorrem do culto às virtudes, algo que se perdeu numa sociedade que confunde Estado laico com Estado ateu -ou, pior ainda, antirreligioso.

De há muito, a perda do paradigma espiritual tornou o homem ocidental alheio aos mais elementares padrões éticos.

A relativização dos valores levou-o a uma visão materialista e hedonista da existência, estabelecendo comportamentos viciados, condutas desleais e irresponsáveis, quando não simplesmente criminosas.

Dostoiévski tem a síntese perfeita, quando, por meio de Ivan Karamazov, diz: "Se Deus não existe, tudo é permitido".

É o que se tem visto: Deus foi retirado da história.

Europa e Estados Unidos são civilizações erguidas sob os valores do cristianismo, que moldou suas legislações e tradições. Hoje, esses valores são renegados, sob o argumento do laicismo do Estado, que de modo algum é incompatível com os valores espirituais.

A ausência de qualquer referência às raízes cristãs da Europa no preâmbulo da Constituição da União Europeia confirma a perda da referência espiritual de uma civilização cujos momentos de esplendor se vislumbram, ainda hoje, nas majestosas igrejas e catedrais góticas que fascinam turistas de todo o mundo.

Ética sem espiritualidade, sem a noção de um porvir em que todos serão julgados pelos seus feitos, não passa de uma fachada.

Nesse ambiente, a política, que a Grécia antiga considerava uma virtude, foi a primeira a se desmoralizar. A economia veio em seguida. O que mais falta?

Será que o Brasil não está seguindo essa agenda laica e antirreligiosa, pautando suas políticas pelos mesmos paradigmas que alimentam a presente crise?

Desatento a isso, não chegará assim a lugar melhor.


KÁTIA ABREU, 50, senadora (PSD-TO) e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)

Publicado na Folha de S.Paulo, em 28/04/2012.